Sobram vagas, faltam profissionais: mercado de TI está aquecido, mas tem déficit de mão-de-obra no Brasil

Sobram vagas, faltam profissionais: mercado de TI está aquecido, mas tem déficit de mão-de-obra no Brasil

A pandemia acelerou o processo de transformação digital no Brasil, mas não conta com profissionais suficientes para crescer. De acordo com o estudo “Demanda de Talentos em TIC e Estratégia STCEM”, realizado pela Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e de Tecnologias Digitais (Brasscom), formamos por ano em média 53 mil pessoas com perfil tecnológico. Até 2025, a expectativa é que o setor demande 797 mil novos talentos. Com o número de formados aquém da demanda, a projeção é de um déficit anual de 106 mil profissionais de TI – 530 mil em cinco anos. Para o especialista em negócios, carreira, liderança e inovação Rodrigo Curcio, há mais um desafio para o seu desenvolvimento: a dificuldade para captar e reter talentos.

– Minha mãe dizia: “Para quem não sabe o que procura, quando acha nunca encontra”. Essa é a realidade diária para 75% das empresas que atraem pessoas – ou melhor, tentam – para trabalhar com tecnologia. Faltam profissionais, mas as empresas não conseguem atrair os atuais, qualificados e disponíveis. Não podemos virar as costas para esse problema, que de fato é um grande desafio no processo de transformação digital do mercado – analisa Rodrigo Curcio.

O desafio de mudar esse cenário converteu-se exatamente no propósito que moveu Curcio, de 33 anos, a abrir mão de uma carreira de muito sucesso em multinacionais para empreender. Na liderança da estratégia para a transformação da experiência de relacionamento entre os colaboradores da multinacional francesa Orange, uma das cinco maiores empresas de TI & Telecom do mundo, ele verificou a importância de processos mais humanizados aliados à tecnologia no dia a dia. Ganhou assim uma operação com pessoas mais satisfeitas, produtivas e conectadas com seus propósitos de vida e de carreira. A dinâmica passou a ser adotada pela empresa mundialmente e essa bagagem o impulsionou na criação do próprio negócio. Dessa forma, no fim de 2016, após 10 anos, quando ingressou ainda como estagiário, pede demissão para fundar a startup HumanAZ. Com uma metodologia inovadora, a hrtech mapeia, avalia e verifica a conexão de propósitos entre profissionais de tecnologia e empresas. Ela mapeia competências técnicas e comportamentais e avalia as histórias que os candidatos podem contar. Entre seus clientes, estão players como Neon, Vibra Energia, Americanas Delivery, Voltz Conta Digital, Bee Vale e PEBMED e Bionexo.

– Conectamos as necessidades e propósitos dos nossos clientes, a pessoa certa com o momento certo, e, quando todos os fatores analisados, tanto da empresa quanto do candidato, se conectam, ligamos as pontas. É preciso entender a importância de um processo de atração estratégico para posições complexas. Atração para retenção – explica.

O desenvolvedor Matheus Souza, goiano de 24 anos, buscava uma vaga para atuar remotamente. Ele conta que as experiências anteriores com seleção e recrutamento as quais participou foram engessadas e que a abordagem direta e humanizada da startup foi fundamental para que alcançasse a tão sonhada vaga numa empresa de TI sediada em Sergipe, onde já trabalha há mais de um ano.

– O atendimento que recebi foi fora do padrão. Começamos a conversar pelo LinkedIn e, desde o início, estavam preocupados em entender o momento e assim identificaram minhas qualidades tanto hard como soft skills. Achei isso incrível, pois havia até comentado com o Rodrigo inicialmente sobre minhas preocupações e se, de fato, estaria no nível da vaga, se conseguiria corresponder, e ele me deixou bem seguro ressaltando que, para eles, a prioridade não era o nível do candidato à vaga, mas a minha disponibilidade para aprender, correr atrás e crescer. Isso não é comum. Nas minhas experiências anteriores, não havia essa sensibilidade, era apenas preencher formulários. Fiquei bem à vontade para expor minhas qualidades, objetivos e possibilidades. E comecei a trabalhar com o estímulo redobrado – conta Matheus. 

– É claro que a empresa precisa atrair quem estiver com propósitos alinhados aos seus e que possam contribuir com o seu crescimento na tecnologia, nos produtos e nos serviços. O ser humano aprende através da seletividade e, portanto, aprende mais rápido o que ativa seu interesse e atenção. Isso acontece por enxergarmos benefício em fazê-lo, e assim passamos a fazer ainda melhor pelo gosto do que realizamos – destaca Curcio.

Segundo o especialista, é preciso unir pessoas, metodologia, tecnologia e canais digitais. Mapear e conectar aspirações de negócios, propósitos e competências. Ir além da frieza das máquinas e do que chama de “descrições confusas que literalmente opõem linguagens a atitudes, comportamentos, índole e valores”.

– A pessoa que desenvolve sua carreira para trabalhar com tecnologia não investe 10 e 15 anos da sua vida para ser reduzido a Júnior, Pleno, Sênior ou as demais réguas que simplesmente definem se você pode ou não contribuir para o seu propósito. As pessoas têm sonhos, interesses, curiosidades, vontades, desejos e querem – e devem – realizá-los – conclui.