Anísio Teixeira e o pragmatismo norte-americano (ou “Lendo Anísio Teixeira – Diário de bordo”)

Anísio Teixeira e o pragmatismo norte-americano (ou “Lendo Anísio Teixeira – Diário de bordo”)

Anísio Teixeira, educador brasileiro

Artigo do professor Eudes Baima, mestre e doutor em Educação Brasileira:

O americanismo atribuído (corretamente) ao educador baiano Anísio Teixeira precisa ser entendido no interior das determinações históricas da formação de seu pensamento. 

Este aspecto, a influência do pragmatismo norte-americano em seu pensamento, tem especial importância na constituição de seu espírito liberal que, imerso numa contradição insolúvel, acompanhou-o ao longo de toda a obra. 

Em primeiro lugar, há o fato de que os Estados Unidos do primeiro pós-guerra fascinou toda uma geração de pensadores e pensadoras, da direita à esquerda. Por exemplo, no desenvolvimento da teoria do imperialismo, tal como Lênin a formulou, Trotsky vai enxergar os EUA (que já o havia impactado fortemente em sua breve passagem como exilado,1916-17, pela preponderância da técnica no cotidiano das grandes cidades) como o protagonista central do patamar imperialista da evolução capitalista, em oposição ao seu antípoda, a revolução proletária que, contraditoriamente, tinha nos próprios EUA os alto graus de desenvolvimento das forças produtivas capaz de embasar a transformação socialista. Indico dois textos interessantes de Trotsky sobre o tema: “Europa e América” e “Se os Estados Unidos se tornassem comunistas”. 

Gramsci também toma os EUA como parâmetro de progresso em oposição à cansada burguesia europeia ou, em termos italianos, uma oposição entre a burguesia americanizada milanesa e a burguesia parasitária napolitana, em seu famoso “Americanismo e Fordismo”.

Mesmo Lênin considerou a aceleração da produtividade soviética em termos de um “fordismo sob controle operário”. 

No Brasil, Lovisolo (1990) enxergará a existência de toda uma geração intelectual magnetizada pela técnica, a livre iniciativa, a confiança no indivíduo, pela “ética protestante como espírito do capitalismo” que exalava do mundo anglo-americano (neste sentido, podemos incluir Weber nesta geração de intelectuais fascinados pela nova civilização industrial norte-americana do primeiro pós-guerra, do qual o “Marx da burguesia” só chegou a ver os primeiros sinais). 

Anísio Teixeira se inclui entre esta geração que se deixou, de um ou outro ponto de vista, se fascinar pelos EUA. Mas aqui há um aspecto particular, de cor, se não local, ao menos latino-americana: o contraponto tradicionalista católico ao pragmatismo norte-americano, ou ao que os padres consideravam uma manifestação do espírito protestante que ameaçava a tradição católica. 

Por assim dizer, o americanismo de Teixeira se colocava “à esquerda” da posição católica, inclusive como seu contraditório irredutível. Esta percepção que nos passa, como professores de história da educação, muitas vezes despercebida, quando discutimos os conflitos entre os pioneiros da educação nova e o pensamento católico em torno dos debates do capítulo da educação na Constituição de 34, nos impede às vezes de ter uma compreensão mais complexa deste conflito. 

A Revista A Ordem, porta-voz, à época, do pensamento católico, defendia a catolicização das leis e do Estado, sendo portadora de uma visão teocrática. 

Este pensamento enxergava nas transformações mundiais sinalizadas pelo Humanismo renascentista e na Reforma luterana, com seus ideias de livre-pensamento o prenúncio do esmagamento da fé e da ordem. Se o Renascimento e a Reforma eram o prenúncio do materialismo ateu e alheio à ordem divina, as revoluções liberais nada mais eram do que o despertar do marxismo e da revolução comunista. A partir daí, não era estranho que os intelectuais católicos, tanto os mais “liberais”, como Alceu de Amoroso Lima, como os fascistas, como Gustavo Barroso, pudessem aproximar tranquilamente pragmatismo de marxismo e esboçar um alvo pragmático-comunista a ser combatido. 

O fraco pensamento liberal brasileiro foi incapaz de expor um ponto de vista alternativo a esta oposição. A posição francamente liberal de Anísio, esposada em sua irrestrita admiração pela mentalidade pragmática norte-americana foi facilmente vendida como de teor comunista. Assim como no fascismo italiano, a tradição, o passado católico se identificou diretamente com uma legítima resistência nacionalista à influência norte-americana, pragmática e comunista, que Vargas espertamente incorporou como uma das bases da ditadura instalada em 1937. 

Quer saber mais sobre o Anísio Teixeira, seu projeto pedagógico e seu tempo? Venha para o *minicurso “Por que não lemos Anísio Teixeira? Traços Marcantes de sua Obra”,  na XI Semana de Educação da Fafidam*.