Livro mostra quando política e religião se misturam e como mistificadores fazem para manipular fieis politicamente

Além das propostas e dos planos de governo, os aspectos socioculturais dos candidatos também impactam diretamente o resultado das eleições. O voto por afinidade religiosa, por exemplo, ganhou força nas últimas décadas. Para analisar e discutir a relação entre religião e política, especialmente entre os grupos evangélicos, o cientista político Victor Araújo lança o livro A Religião Distrai os Pobres? pelo selo Edições 70, da editora Almedina Brasil.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto DataFolha em 2020 mostra o crescimento da população evangélica no Brasil. De acordo com o levantamento, 31% dos brasileiros são adeptos da religião, percentual que representa mais de 65 milhões de pessoas – em 2000, por exemplo, este público era de 15,6%. Segundo o autor, esta parcela da população tende a eleger candidatos conservadores que defendem a “moral e bons costumes” e se opõem à redistribuição de renda.

O livro é fruto da tese de doutorado de Araújo, que recebeu o prêmio Capes de melhor trabalho nas áreas de Ciência Política e Relações Internacionais, do Ministério da Educação. Na obra, o autor explora de forma aprofundada a mentalidade e os comportamentos dos eleitores evangélicos no Brasil e mostra como este grupo contribuiu para a propagação do conservadorismo.

A combinação de vulnerabilidade, baixo acesso à informação e conservadorismo moral
permite às lideranças mobilizar os fiéis contra seus inimigos nas urnas.

(A Religião Distrai os Pobres?, pg. 93)

Para compreender o impacto do voto evangélico no Brasil de hoje, Araújo retorna aos anos 1970, quando uma onda de redemocratização atingiu a América Latina. Naquele período, a redução da desigualdade e a redistribuição de renda estiveram em pauta entre os eleitores. Estes tópicos mais à esquerda diferem da atual onda conservadora – uma tendência mundial,  inclusive.

Com uma linguagem fácil e exemplos práticos, o cientista político mostra como o pensamento do eleitor brasileiro foi do “política e religião não se misturam” para o discurso “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.