Tuty Osório: “Não somos náufragos”

Tuty Osório: “Não somos náufragos”

Crônica da jornalista Tuty Osório:

O bar já não é mais de encontros garantidos, aquele canto por onde se dava uma passada para prosear ideias, descascar na vida alheia e tomar uma gelada. Com gelo, soda ou purinha. Ainda há os pontos. Sem mais aquelas revoadas de fim de tarde, começo de noite, madrugadas adentro. Que tem, tem, só que diferente. Outra energia, outro modo de clube. Nos anos 60, 70, 80, até um pedaço dos 90, quase se morava no bar. Anísio, Bar Academia, Cais Bar, Coração Materno. Só de Fortaleza a lista das minhas memórias é imensa. E há as memórias de tanta gente que teve seu bar predileto pelos bairros.

Dia desses fui parar em um, desafiada por gente querida que cultiva a boemia com entusiasmo. Confesso que nunca fui muito do esporte, embora quando mergulho seja com convicção. Como ando mais reclusa que carmelita, estou destreinada das conversas, disputas, polêmicas. Acabei ouvindo mais que falando e fiquei deliciada em viver aquela presencialidade tão concreta, tão palpável, quase orgânica – para usar uma palavra da moda, que não aprecio, porém, quase sempre, sucumbo.

É tão mais divertido ouvir, esperar a hora de intervir, interromper e ser interrompido por voz altiva, terem som as gargalhadas e cara os muxoxos. Quando cheguei a filosofia ia alta. Discutia-se a opressão urbana, a falta de qualidade do cotidiano abalado pela violência, lixo nas ruas, calçadas esburacadas. O quanto isso abala a saúde mental e espiritual do indivíduo. Dali evoluiu para os condomínios fechados e sua distópica paz cenografada.

Um colega defendeu com paixão a vida no campo, ou na praia com um terreninho para plantar. A outra a liberdade de sair por aí sobre rodas, mundo afora num carro casa, sem destino programado. Plano de bordo só para não passar perrengue. Dali passou-se aos exemplos. Fulano que mudou definitivamente para a Taíba, vive com simplicidade. Cicrano que foi ser comerciante em Viçosa, a advogada que montou pousada em Luís Correia. Santino escolheu o Crato. Achou que ainda era grande demais pra sua sabática década final e foi parar em Russas.

Uns reclamam que a música do bar está muita alta. Outros que o serviço, hoje, está péssimo. Acodem alguns que é sempre assim, a gente é que já acostumou. Eu começo a me arrepender de ter saído de casa. A mesa é ao ar livre. Quando bate a brisa única de Fortaleza não consigo evitar a emoção.

Estamos vivos. De certa forma juntos. De muitas maneiras movidos pela compaixão.

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Tuty Osório é jornalista, especialista em pesquisa qualitativa e escritora.

São de sua lavra QUANDO FEVEREIRO CHEGOU (contos de 2022); SÔNIA VALÉRIA, A CABULOSA (quadrinhos com desenhos de Manu Coelho de 2023) e MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA, dez crônicas, um conto e um ponto (crônicas e contos, também de 2023).

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