Artigo de João Filho: “MBL saliva com reeleição em El Salvador”

Texto do jornalista João Filho, colunista do site The Intercept Brasil:

El Salvador é um país pequeno, de 7 milhões de habitantes e pouca relevância no cenário internacional. Mas a reeleição do direitista Nayib Bukele foi muito festejada por aqui.

Os bolsonaristas ficaram especialmente excitados, já que o salvadorenho realizou os sonhos autoritários que eles não conseguiram.

Após vencer a primeira eleição, o populista passou a controlar o parlamento, destituiu juízes da Suprema Corte, sufocou a imprensa, violou uma série de direitos humanos, colocou as Forças Armadas aos seus pés e ainda se reelegeu com alta popularidade.

Assim como Jair Bolsonaro, Bukele fez das ameaças golpistas uma prática permanente. Chegou a ordenar uma invasão de militares armados no parlamento para pressionar deputados pela aprovação de um projeto do seu interesse.

A própria renovação do seu mandato é um golpe contra a Constituição, que proíbe a reeleição. Essas são as credenciais do novo queridinho da direita brasileira. O que mais parece fascinar a reaçada brasileira é a política de tolerância zero com a criminalidade. Em 2015, El Salvador tinha uma taxa de 106 homicídios a cada 100 mil habitantes. Ano passado, a taxa despencou para 2,4.

Mas como o “ditador mais legal do mundo” — é assim que Nayib Bukele se autorrefere ironicamente  — atingiu essa marca? É simples: o salvadorenho ganhou poderes supremos depois de instalar um estado de exceção.

Bukele praticamente erradicou a criminalidade eliminando a garantia do direito de defesa de acusados, prendendo inocentes sem ordem judicial, torturando presos e investigados, reduzindo a maioridade penal para 12 anos e por aí vai.

A violência urbana foi reduzida ao custo de muita violência contra a democracia e a humanidade. Quem paga esse preço, claro, não é a elite. As ações de Bukele têm um claro recorte de classe.

Os mais pobres — os que mais sofreram com a brutal guerra de gangues — são as principais vítimas da repressão. Qualquer mínima suspeita de envolvimento com gangues é suficiente para uma prisão sumária.
Hoje, dezenas de crianças estão desamparadas, com pais e mães presos sem o devido processo legal. É esse o pacote anticrime que faz brilhar os olhos da direita brasileira.

O que nossos reaças não falam é que o governo Bukele sentou à mesa com os chefes das gangues salvadorenhas para negociar um acordo.

Segundo reportagem do El Faro,, o governo se comprometeu a conceder benefícios a alguns criminosos , como autorização para a venda de frango, pizzas e doces nas penitenciárias. Em troca, as gangues dariam uma maneirada na criminalidade.Eis a hipocrisia do discurso de implacabilidade contra o crime.

O MBL também está encantado com a implementação paulatina da ditadura em El Salvador. O fascínio é tanto que mandaram militantes para acompanhar o processo eleitoral salvadorenho.O liberalismo do MBL não resiste a um extremista de direita em ação. Por mais que tente sustentar a fachada liberal, o grupelho sempre acaba abraçado com a extrema direita.

A intenção deles agora é criar um partido para disputar o espólio eleitoral de Bolsonaro. Investir na pauta do combate à criminalidade é parte desse objetivo.

Os meios antidemocráticos escolhidos pelo autocrata salvadorenho são ignorados para se exaltar os resultados. É esse o modelo de segurança pública que os liberalecos sentados no colo da extrema direita querem. Paz para os ricos, selvageria para os pobres.

Já que o MBL pretende formar um partido, lembremos quais quadros o grupo já produziu. O principal é Kim Kataguiri, o deputado federal que defendeu publicamente o direito de nazistas alemães se organizarem em partidos políticos.

Outro destaque é o youtuber Mamãe Falei, que teve o mandato de deputado estadual cassado após flertar com loiras ucranianas em uma missão internacional do grupo porque, segundo ele, elas “são mais fáceis porque são pobres”.

Não nos esqueçamos de outro youtuber, o ex- vereador carioca Gabriel Monteiro, cassado e preso pela acusação de estuprar uma menor.

É natural que o grupo se identifique com um playboy autoritário de boné que se reelegeu de forma ilegal e está encarcerando pobres inocentes ao arrepio da lei. Bukele é a cara do MBL.

O DNA golpista e autoritário de parte significativa da direita brasileira faz desse flerte com Bukele algo natural. É o discurso do “bandido bom é bandido morto” elevado à centésima potência.
O caminho da barbárie está sendo tomado com muito humor, boné virado para trás e lacração contra a esquerda. A democracia e o estado de direito são apenas um detalhe.

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