Por Tuty Osório, jornalista e escritora:
As palavras da moda com as quais implico são muitas. Já escrevi aqui que reconheço serem úteis para garantir a comunicação, frequentemente. Uma que me irrita é assertivo. Outra é letramento. Nesse lugar, mais duas, no sentido de situação, momento de vida, característica, condição, enfim, compreendo que facilita. Fico Impaciente com o empobrecimento que trazem à língua, à expressão, à construção de formas de troca de ideias. Contudo, está difícil fazer diferente e não quero parecer arrogante. Será? Ultimamente tenho mais dúvidas do que certezas. Embora imposte minha voz dissonante com firmeza e aparente segurança de que sei. Verdade, verdadeira, é bem mais seguro duvidar. Na dúvida, duvide. E duvide, sobretudo, de sua pétrea sapiência.
Pois eis que chegou mais um 20 de novembro, dia de Zumbi dos Palmares, data da Consciência Negra. Porque fui assertiva no letramento racial, do ano passado pra cá avancei. Conheci Steve Biko, o sul-africano que criou e espalhou o conceito. Morreu torturado pelo Apartheid, regime aceito durante décadas como Normal. Muito cuidado com a normalidade que acalma os ânimos, enquanto trucida às escondidas e , depois, às claras , mesmo. É sempre bom questionar. Não há relatividade naquilo que é cruel. Jamais se justifica a desumanização. O fato é que, não só eu avancei. O debate a respeito da Consciência Negra está cada vez mais interessante, diverso, complexo, esclarecedor. Muito importante constatar que dos anos 70 do XX, para este XXI atrapalhado, evoluímos na visibilidade, na compreensão. Até os mais alienados não podem negar que o tema existe, as pessoas estão aí, que somos nós em pauta. Pois somos brasileiros, com história, passado. Daí que há que ter memória, legado.
Em outubro chegou aos cinemas MALÊS, de Antônio Pitanga. Gosto de filmes brasileiros, também do teatro, da dramaturgia da TV. Não vou discutir detalhes técnicos, não sou especialista e como público tenho, sim, as minhas questões. Importa o assunto e a virtude da visibilidade necessária. Os Malês eram muçulmanos, escravos e alforriados do século XIX, que se uniram numa rebelião contra os maus tratos e a privação de liberdade, em sentidos múltiplos. O mote foi a construção de uma Mesquita, porém, os abusos eram atrozes e configuraram uma avalanche de motivos para a revolta, violentamente reprimida, aliás. Quase vitorioso, o levante, porque os Malês eram alfabetizados, sendo nisso superiores aos brancos, seus senhores. Há bastante o que conhecer e refletir a respeito desse evento, muito mais que um episódio,- é uma leitura de mundo, uma cosmovisão inadiável ao nosso repertório contemporâneo.
Um livro, lançado há dois anos, revive com o filme a luz que tem que ser lançada sobre essa tristeza sem fim. Que não passou, não morreu, não se extinguiu nos padecimentos. Perambula e machuca quem não é ruim da cabeça. Nem doente, né?
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INFORMAÇÕES:
Malês, A revolta dos escravizados na Bahia e seu legado, por Gilvan Ribeiro, Editora Planeta, 2023
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Tuty Osório é jornalista, especialista em pesquisa qualitativa, e escritora.
São de sua lavra QUANDO FEVEREIRO CHEGOU (contos de 2022); SÔNIA VALÉRIA, A CABULOSA (quadrinhos com desenhos de Manu Coelho de 2023) e MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA, dez crônicas, um conto e um ponto (crônicas e contos, também de 2023).
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SÔNIA VALÉRIA, A CABULOSA
QUANDO FEVEREIRO CHEGOU
MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA
Em dezembro de 2024 lançou AS CRÔNICAS DA TUTY em edição impressa, com publicadas, inéditas, textos críticos e haicais.

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