Por Ana Márcia Diógenes (@namarcia), jornalista, professora e escritora:
Uma das expressões que considero mais tristes é “bala perdida”. Primeiro, pelo fato de alguém atirar a ermo tornar ainda mais cruel a banalização da importância da vida
humana. Segundo porque, mesmo sem alvo certo, há a motivação de que a bala atinja alguém. Independentemente de quem seja ferido ou morto, o que se quer é, até vulgarizando a irresponsabilidade, promover uma maldade.
Por um lado, podemos até pensar que esta expressão bala perdida não coaduna com a verdade. Se a arma foi acionada é porque há o interesse, hostil, de causar uma tragédia para um indivíduo, uma família, uma cidade. Então, a bala não estaria tão perdida assim. Só não estaria com um endereço-corpo específico.
Mas, o pior é que, mesmo teoricamente sem endereço, essas balas acabam alcançando e por vezes atravessando, crianças brincando nas ruas, bebês no banco de trás do carro, idosas aguando plantas, mãe que iam buscar filhos nas escolas, trabalhadores a caminho de casa depois de um dia de plantão…
A expressão, por si só, é moldura de tragédias, infelizmente, cotidianas, principalmente em comunidades da periferia dos grandes centros urbanos. No Brasil, o Rio de Janeiro
lidera o número de casos, mas em todas as capitais essas balas passaram a fazer parte da realidade.
Fiquei ainda mais estarrecida ao ler, já este ano, uma notícia no site da Câmara dos Deputados de que “A Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados aprovou proposta que libera o porte de arma para proprietários, dirigentes e filiados de clubes de tiro”. Para ser transformada em lei, a proposta ainda precisa ser aprovada na Câmara e no Senado.
Aumentar o número de pessoas armadas, a meu ver, só vai causar mais tragédias. Seja em balas direcionadas para alvos escolhidos ou aleatórios. A maldade estará a milímetros do gatilho.
*** ***
Ana Márcia Diógenes é graduada em Comunicação Social (UFC), especialista em Responsabilidade Social e em Psicologia Positiva e mestra em Planejamento e Políticas Públicas. É professora de Jornalismo (pós-graduação), escritora e consultora em comunicação e direitos para a infância e juventude.

Fique por dentro do mundo financeiro das notícias que rolam no Ceará, Nordeste e Brasil.