Artigo: “Groenlândia, tarifas e o redesenho silencioso do poder global”

Por Adriana Melo, especialista em finanças e tributação:

A disputa entre Estados Unidos e Europa deixou de ser apenas comercial. Passou a operar como linguagem de poder.

Desde o início do segundo mandato, Donald Trump resgatou uma ideia que parecia folclórica em 2019: a aquisição da Groenlândia. O argumento agora é estratégico: segurança nacional, controle do Ártico, rotas marítimas emergentes, defesa contra China e Rússia, além de infraestrutura militar e espacial.

A reação foi imediata. A Dinamarca reiterou que a ilha não está à venda. A Groenlândia, com autonomia crescente e independência como horizonte de longo prazo, reforçou que pertence ao seu povo. O impasse escalou.

Na última semana, Trump anunciou tarifas adicionais de 10% sobre produtos de oito países europeus que enviaram tropas simbólicas ou reforços militares à Groenlândia: Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Holanda, Finlândia e Reino Unido. A alíquota pode subir para 25% em junho, condicionada a um “acordo total” sobre a ilha.

A Europa reagiu de forma coordenada: reuniões emergenciais da União Europeia, solidariedade pública à Dinamarca, protestos em Nuuk, exercícios da OTAN e a ameaça de acionar o instrumento anti-coerção da UE, o chamado “bazooka comercial”.

O comércio entrou oficialmente no campo da geopolítica.

Co-dependência EUA–UE

O comércio de bens e serviços entre Estados Unidos e União Europeia alcançou cerca de US$ 1,5 trilhão em 2024. A UE mantém superávit em bens, mas, quando os serviços entram na conta, o desequilíbrio praticamente desaparece.

Mais relevante que o saldo é a função. A Europa é insubstituível em bens industriais, farmacêuticos, máquinas de precisão e engenharia avançada. Os EUA dominam serviços, tecnologia, financiamento e propriedade intelectual. Trata-se de uma co-dependência estrutural.

Mais do que o valor das tarifas, o sinal preocupa: o comércio passa a ser usado como punição política direta, criando um precedente difícil de conter.

Por isso, as tarifas não produzem vencedores. Cadeias produtivas são integradas demais para rupturas limpas. Insumos cruzam o Atlântico várias vezes antes do produto final. O efeito aparece como compressão de margens, adiamento de investimentos e inflação localizada, uma erosão gradual.

Estimativas indicam que uma guerra comercial plena poderia reduzir entre 0,1% e 0,3% do PIB europeu, com impactos mais fortes sobre Alemanha e Reino Unido. Os EUA sofrem com inflação interna; a Europa responde com retaliações; o mundo cresce menos.

Esse é o limite invisível da geopolítica econômica: governos escalam, mas empresas pagam a conta.

Apesar da liderança em inovação, empresas americanas operam cadeias tecnológicas profundamente globais. Semicondutores, aviação, equipamentos industriais, telecomunicações e tecnologia médica dependem de componentes, máquinas e padrões produzidos fora dos EUA, muitos deles na própria Europa.

Mesmo quando o produto final é americano, partes críticas do processo não são. Essa interdependência transforma o setor privado em freio silencioso da escalada. Tarifas pressionam governos, mas corroem competitividade empresarial. Quando os custos sobem demais, cresce a pressão por acomodação.

Reindustrialização e rearranjo

A política industrial americana, expressa no CHIPS Act e no Inflation Reduction Act, busca reduzir vulnerabilidades e reconstruir capacidade produtiva doméstica ou próxima. Mas reindustrializar é caro, lento e intensivo em capital humano.

No curto prazo, tarifas funcionam como barganha, mas elevam custos internos. O desenho real combina subsídios, pressão seletiva e friend-shoring. México e Canadá ganham espaço; Japão e Coreia ocupam nichos; a Índia surge como aposta de médio prazo. A Europa, porém, segue difícil de substituir.

Diante desse cenário, a União Europeia acelerou sua estratégia de diversificação. O acordo UE–Mercosul, assinado em janeiro de 2026 após 25 anos de negociações, elimina mais de 90% das tarifas e cria uma zona de livre comércio com cerca de 700 milhões de pessoas. Em paralelo, o acordo UE–Índia avança pelo mesmo motivo.

Não se trata de ruptura com os EUA, mas de hedge. O resultado é o trade reshuffling: menos dependência de um único eixo.

Onde o Brasil entra

Nesse rearranjo, o Brasil surge como beneficiário natural. Mesmo com queda das exportações para os EUA em 2025, o país fechou o ano com superávit recorde e ampliou relações com mais de 50 parceiros comerciais. Para 2026, as projeções apontam saldo entre US$ 70 e 90 bilhões.

Os setores mais bem posicionados seguem lógica objetiva: agronegócio e alimentos diferenciados; mineração e minerais críticos; energia e biocombustíveis; indústria intermediária ligada ao agro e à energia; bens de marca e economia criativa.

Há ainda um fator silencioso: a projeção cultural do Brasil, que reduz risco percebido e, em certos mercados, vira margem.

O risco é repetir um erro histórico: exportar volume sem capturar valor.

O que a Groenlândia revela

O desfecho mais provável não envolve anexação formal, mas o aprofundamento de acordos de segurança, presença militar e infraestrutura crítica. A influência funcional substitui a soberania jurídica.

A Groenlândia não é o centro da história. É o ponto onde convergem clima, rotas marítimas, minerais críticos, espaço, comércio e poder.

O mundo não está se desacoplando. Está se reorganizando para depender menos de um único eixo. Para países como o Brasil, o desafio não é escolher lados, mas operar com consistência em um cenário mais instável, e cheio de janelas raras para quem sabe ler o mapa antes que ele termine de se mover.

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