Por Tuty Osório, jornalista e escritora:
Esta semana pude ver o filme brasileiro O ÚLTIMO AZUL. Vi como prefiro, sem saber nada a respeito, sem ter ideia do que se tratava. Apenas que foi premiado, tem sido elogiado e tem Rodrigo Santoro no elenco. Aliás, sempre brilhante, seja qual for o estilo de participação. Seu papel é grande e pequeno. Aparece pouco, porém, tem importância essencial. São brilhantes todos os personagens, da protagonista aos coadjuvantes. Tudo é principal no filme, inclusive a natureza e o desenho de som. Um deslumbramento que faz chorar, rir, incomoda e conforta. Daqueles que a gente gostaria de ter feito. Que nos faz sair transformados, mesmo que não saibamos expressar como.
O ÚLTIMO AZUL fala de hipocrisia. De negligência e desrespeito vestidos de proteção e pretenso cuidado. Fala de ser velho com liberdade verdadeira, de ser criança com direito às possibilidades de fazer diferente sem ser taxado de divergente. É um manifesto contra a docilidade imposta, pela diversidade explosiva em beleza e canto. É o último antes da era em que o Azul será senhor das horas, dos dias, dos anos. Que passam, inexoravelmente, mas que podem e devem passar a passar sem essa obsessão pela normalidade que tem regido a nossa sociedade, seja qual for o estágio de classificação de seu desenvolvimento. Partindo de uma distopia e do realismo mágico, conta uma história íntima da qual a maioria foge em alienante debandada.
Como cinema, O ÚLTIMO AZUL é lindo e flui sem se dar por isso. Quando menos esperamos acaba e nos deixa em suspensão de ternura e tristeza. Ou seja, faz bater em nosso coração a compaixão adormecida pela superficialidade. Como é bom lembrar que somos gente, rodeada de gente, com a vantagem da escolha e o poder do amor que compartilha. Não há novidades. Há um olhar que provoca e desperta o que há de melhor em nós. Lembrando que o pior está de plantão, justamente, para que o melhor prevaleça. Depende do que fazemos com o pano branco que nos é estendido. Vamos enxugar lágrimas ou falsear torniquetes?
Pois deixemos de lado os calmantes químicos e acalmemos o nosso coração olhando a flor no vaso da varanda por minutos a fio. A consciência da impermanência, tão apregoada pelo maravilhoso saber budista, não é o rapto do futuro. É o resgate do devir que nos devolve a esperança de que sofrer não é eterno. Eterna é a alegria da aventura de estarmos aqui, entre os nossos.
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Tuty Osório é jornalista, especialista em pesquisa qualitativa, e escritora.
São de sua lavra QUANDO FEVEREIRO CHEGOU (contos de 2022); SÔNIA VALÉRIA, A CABULOSA (quadrinhos com desenhos de Manu Coelho de 2023) e MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA, dez crônicas, um conto e um ponto (crônicas e contos, também de 2023).
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SÔNIA VALÉRIA, A CABULOSA
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MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA
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