Carlos Gildemar Pontes: “Como voltar a pensar”

Por Carlos Gildemar Pontes, professor universitário (Literatura, UFCG) e escritor. Texto publicado originalmente no site Segunda Opinião:

Talvez seja fácil definir o que seja o pensamento. Talvez exercitemos mentalmente funções que o cérebro aprendeu ao longo da vida e nos tenham tornado autômatos. Ao proclamar a sentença; Penso, logo existo, René Descartes sugeriu que basta pensar para poder existir. Aí caímos num imenso abismo sobre o conceito de existência. O que é existir?

Vamos ver se Descartes tem razão ou se, na era da modernidade líquida, dos amores líquidos, da pulverização das ideias, da sobreposição de imagens e vídeos expostos em redes sociais nós somos levados a pensar e a, de fato, existir. Nietzsche ampliou o conceito de pensar ao reduzir o homem no seu niilismo absoluto; Guy Débord provou que a espetacularização dos sentidos causa mais impacto na mente do que um livro; e Zigmund Bauman mostrou como estamos vivendo uma era de futilidades e perda da essencialidade da alma. A partir deste ponto, poderíamos pensar uma cena surrealista em uma praça repleta de humanos zumbinizados, sentados em bancos ou debaixo das árvores, pelo chão, encostados em paredes. E cada um dos pilares da Psicanálise moderna, Freud, Jung e Lacan, oferecendo seus serviços, sentados em bancas com placas sobre as mesas: Curamos você – Volte a pensar.

A existência contemporânea está erguida sobre o signo da posse. Posse de dinheiro, de status, de valores impostos por uma burguesia cujas ética e moral são absurdamente nocivas ao bem estar e à fraternidade entre povos, entre famílias e entre casais. Na medida em que nos prendemos a um celular e navegamos horas, dias, meses, anos, cada vez mais nos distanciamos dos sentidos que nos fizeram atenciosos, afetivos e amorosos, como parte de uma educação familiar, complementada pela escola e pelo direito ao trabalho, à saúde e ao lazer. O sistema que comanda o capital e governa nossas vidas, nos impõe modelos, formas que vão cada vez mais moldando nossa mente de acordo com os seus interesses, sempre atrelados ao lucro e à exploração da nossa força de trabalho. Todos os governos que atendem ao capitalismo, capitulam e levam junto a expectativa de vida de milhões de seres humanos, completamente dependentes de políticas públicas compensatórias e criadas para alimentar a parte cruel deste sistema. Mesmo assim, os beneficiários das políticas públicas, em grande parte, não conseguem aderir aos programas criados para lhes favorecer, quando votam em representantes que lhes tiram cada vez mais os direitos adquiridos.

Onde está o pensar? Onde está a existência? Onde está o sonho de liberdade pelo esforço do trabalho e pela conquista através dos estudos?

Para o pobre, só existem os políticos ladrões e os patrões que lhes dão migalhas. Não conseguem associar que os políticos ladrões são em sua maioria empresários, patrões e a serviço do sistema que rouba direitos e suga a vida, através das migalhas que vendem como bugigangas de um grande mercado de apagamento das ideias, dos saberes e das formas gregárias de pensar associadas ao afeto, à solidariedade e ao respeito.

Passo sempre em locais onde vejo lojas, oficinas, mercearias, igrejas, escolas, bares, pontos de ônibus, lugares que reúnem pessoas que trabalham e tiram dali o seu sustento. O que percebo é que quando não estão atendendo às suas clientelas, as pessoas simplesmente estão vidradas no celular.

Como professor, vejo a mesma realidade em sala de aula. Chego a ser desagradável ao discursar sobre o mal da desatenção, a falta de respeito em se ver um celular quando se está conversando sobre algum assunto de interesse do indivíduo ou da coletividade. Algumas pessoas ficam tão absortas que não respondem, não mexem a cabeça para qualquer gesto de falar algo que não nos deixe com a sensação de completa inutilidade. Quando pedimos para ler um livro ou um capítulo sobre o tema que iremos debater, vão à IA e trazem resumos quase iguais na totalidade, a diferença talvez seja que a IA está começando a alternar frases que “não sabemos” mais construir.

Em breve, perderemos nossa humanidade, nossos valores como amor, amizade, ética, respeito, atenção… porque simplesmente já não somos mais essenciais a este mundo. Aos que assim estão, só me resta chorar. Sinceramente todo dia me lembro da minha humanidade e choro. Gostaria de encontrar mais gente que quisesse sorrir e contemplar um mundo que ainda resta em alguns de nós. Um mundo com poesia, amor, sorrisos, sol, vento, mar, serra, rio…

Um mundo que não tire de mim a capacidade de refletir e não apenas repetir. Repartir e não só acumular. Juntar as mãos e caminhar pelo simples prazer de viver ali com sua alma encantada e feliz.

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