Por Natalia Viana, cofundadora e diretora executiva da Pública:
No Dia do Jornalista, celebrado em 7 de abril, fiquei emocionada ao ler as descrições de nossa equipe sobre o que é ser jornalista. “Ser jornalista é não se contentar com a primeira explicação”, refletiu a repórter Amanda Audi. “Ser jornalista é contar as histórias que os poderosos querem esconder”, resumiu a editora Ludmilla Pizarro.
Neste mesmo dia, a Pública se juntou a organizações de defesa da liberdade de expressão para entrar com uma ação civil pública conjunta contra a União, denunciando o uso da máquina pública para o monitoramento ilegal de jornalistas e comunicadores pela Abin durante o governo Bolsonaro. É uma ação fundamental para evitar que ocorra novamente o que aconteceu com a nossa repórter Alice Maciel, tachada de “jornalista left” pelos arapongas da Abin.
Felizmente, desde a espionagem, as coisas avançaram. Na semana anterior, participei de um evento na PUC do Rio Grande do Sul, o primeiro fórum latino-americano de estudos de inteligência, promovido pela PUC junto com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Nesse encontro, pude dizer diretamente para o ouvidor da Abin como é inaceitável que servidores públicos espionem jornalistas.
O que aconteceu no nosso caso, e no caso de vários outros jornalistas que foram espionados pela Abin paralela, é uma violação profunda do direito à liberdade de imprensa.
Perseguir e vigiar jornalistas por uma motivação política fere o direito à informação dos cidadãos, que é realizado através do trabalho dos jornalistas.
E viola outro direito: o sigilo da fonte. A proteção à fonte jornalística é um direito constitucional segundo o artigo 5º da Constituição.
Pior. Essa violência contra jornalistas aconteceu dentro do governo Bolsonaro e em um contexto em que o presidente atacava diariamente jornalistas.
Para finalizar: a espionagem da Abin foi feita especialmente contra jornalistas que investigavam desinformação. Portanto, ela não pode ser vista fora do contexto do uso da desinformação para tentar dar um golpe de Estado.
Neutralizar jornalistas que investigavam a desinformação — como é o caso da Alice Maciel, que foi espionada enquanto trabalhava na Agência Pública — era uma maneira de neutralizar os profissionais capazes de desvendar as campanhas de manipulação, investigá-las e expô-las, com o intuito de, ali adiante, tentar dar um golpe de Estado no Brasil.
Então, apenas observando esse ataque que sofremos, podemos concluir aquilo que todos os candidatos a ditadores já sabem: sem jornalista não existe democracia.
Os agentes da Abin que nos espionaram sabem disso.
Os bolsonaristas que prometem anistiar todos os golpistas sabem disso.
A extrema direita nacional e internacional sabe disso.
Os grandes capitalistas que lucram com governos autocráticos, como as Big Techs, sabem disso.
E você também sabe disso.


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