Por Roberto Maciel, jornalista
Ali pelo comecinho dos anos 1980 ganhou proporção midiática a violenta endemia da síndrome da imunodeficiência adquirida, a aids.
Foi devastador o impacto sanitário e emocional provocado pelo noticiário nas comunidades homoafetivas. Chamava-se a doença, como que tateando em meio à ignorância e ao preconceito, de “câncer gay” – descobriu-se depois que não era exclusividade homossexual. Os acometidos eram ofensiva e horrendamente taxados de “aidéticos”.
Tempos difíceis, aqueles.
Mas houve que reparasse no medo, nas mudanças de costumes, na perseguição, na falta de respeito e na intolerância espaços para tirar reflexões dali, com humor e inteligência; para mostrar os excessos e as insanidades geradas pelo desconhecimento.
O cearense Chico Anysio, maior talento que o humor deu ao Brasil, foi quem transformou esquetes no programa de TV que fazia em agudas críticas a situações abusivas e surreais.
Haroldo, dizendo-se o hétero e “ex-gay”, foi o personagem criado para mostrar a esquizofrênica sociedade que se dividia entre o medo da aids e a perseguição contra homossexuais que, segundo acusava-se, eram “mensageiros e portadores da praga divina” que destruiria a humanidade.
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Não podia ver mulher, o Haroldo, que logo bancava o machão: “Vou ter morder todinha!”
Pura bazófia, pura graça pelo exagero, puro non-sense: a “cantada” ao estilo pedreiro era disparada por um rapaz com trejeitos e falas suaves, vestindo cor-de-rosa. A moça, alvo do galanteio, nem dava bola. Passava direto, após uma rabissaca, sem sequer deixar Haroldo triste.

O contraponto era Telma, espevitadíssima amiga gay que não se havia amedrontado. Ralhava horrores com o tolo e apavorado Haroldo.
Sempre que questionado por Telma por ter “saído do ninho” e convidado a “voltar para o reduto”, Haroldo dizia que estava fugindo da “maldita” – a aids – e que pretendia continuar sendo, mesmo que com dificuldade extrema, “machão”.
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Foi de “Haroldo, o hétero”, que lembrei quando vi o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), pré-candidato a presidente do Brasil, ameaçando – se eleito for – acabar com direitos trabalhistas, com estatais, com qualquer política social que o Governo Federal tenha implantado. Isso cabe, na cabeça transtornada de Zema, para bolsa-família, Minha casa Minha vida, vale-gás, Pé-de-Meia etc etc etc.
Romeu Zema é “Haroldo, o hétero” do momento. Quer bancar o machão, mas não sabe o que fazer se não obtiver sucesso nas cantadas que espalha por onde passa.
O ex-governador, que afundou Minas Gerais em dívidas impagáveis, que bancar a pose de “machão bolsonarista”, que é contra qualquer coisa que cheire a compartilhamento social, a garantia de direitos.
O “Haroldo”, tão valentão, diz que é a favor de crianças trabalhando. Veja só o tipinho de gente que ele é.
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Assim como “Haroldo, o hétero”, o “ex-gay”, Romeu Zema sabe que não tem como prosperar. Sabe que não é se fazendo de durão que vai conquistar algo e que não terá como ajudar ninguém da direita, com um discurso fuleiro, vago e sem argumentos, a crescer na opinião pública.
Zema foi acionado para atrapalhar a qualidade de debate político no primeiro turno das eleições, assumindo ser um bestalhão, para apresentar a fatura aos milicianos bolsonaros no segundo turno.
Há quem avalie que a estratégia é a de que ele encene o papel de mauzão, vilão da opereta, e Flávio Bolsonaro apareça como o bonzinho, moderado, mocinho. É difícil acreditar que uma solução tão pueril para esconder caráteres seja empreendida num palco onde as coisas são agora inescondíveis – mas vá lá: espere-se tudo de quem come banana com casca e dá medalha a um bandido que chefiava o “escritório do crime” do Rio de Janeiro…
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Como diria o recém-famosíssimo apresentador de TV João Inácio Jr (foto acima): “É o pau que rola nas redes”…
Será?


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