Bets ameaçam sociedade: “SUS ainda não tem a estrutura adequada para tratar quem busca sair do vício; há dificuldade para achar tratamento”, diz vereador

A Câmara de Fortaleza realizou  audiência pública para discutir o vício em jogos online com apostas (“bets”) e seus impactos na saúde pública no município de Fortaleza. O vereador Benigno Júnior (Republicanos) é o autor da iniciativa. Com o avanço das apostas online, o tema se tornou o centro do debate na Câmara. A audiência reuniu especialistas que discutiram os impactos do vício em jogos, a “ludopatia”, nas famílias e no sistema de saúde pública da cidade. O requerimento busca encontrar caminhos para diminuir o que já é considerado por muitos como uma nova “epidemia” comportamental.

Para Benigno Junior, o tema exige atitude imediata das instituições. Segundo o parlamentar, as apostas online, legalizadas no Brasil desde 2018, abriram um compartimento novo de vulnerabilidade que atinge todas as classes. “Esse tema tem causado grande destruição das nossas famílias, e não só em Fortaleza, mas em todo o Brasil. A dependência tem atingido muita pessoas, que vão desde os mais vulneráveis até famílias de melhor condição”, alertou o vereador.

Benigno destacou ainda as consequências do vício, como depressão e suicídios, e a pressão que o problema exerce sobre a rede pública. “Cerca de 80% da população de Fortaleza usa o SUS e, hoje, o problema é de saúde pública. O sistema ainda não tem a estrutura adequada para tratar essa pessoa e quem busca sair do vício encontra dificuldade até para achar tratamento”, afirmou.

O cenário nacional apresentado por Eduardo Rocha Dias, Procurador-Geral da AGU, é alarmante. Com base em dados da Secretaria de Prêmios e Apostas, ele revelou que, em 2025, o gasto bruto dos brasileiros com apostas chegou a R$ 246 bilhões.

“O cenário de endividamento das famílias é preocupante. No plano municipal, é preciso verificar como está a rede de atendimento à saúde mental”, sugeriu Dias. O professor defende medidas rigorosas de regulação, como a restrição da publicidade feita por influenciadores e o monitoramento das plataformas. “As empresas deveriam ter o dever de monitorar sinais de jogo patológico, como apostar de madrugada ou por muitas horas seguidas, e impor pausas ou exclusões automáticas”, defendeu. Ele ressaltou ainda que a ludopatia é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e vicia tanto quanto substâncias químicas.

Diante do aumento da demanda, o poder público estadual tem buscado qualificar o atendimento. Rane Felix, coordenadora de Políticas de Saúde Mental da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), explicou que o foco atual é a formação das equipes para um acolhimento humanizado.

“O nosso primeiro foco é que os profissionais recebam e acolham essas pessoas sem estigma e sem preconceito. O Ceará conta com 125 CAPS, sendo 32 deles do tipo EAD (Álcool e Drogas), que estão sendo preparados para essa escuta qualificada”, informou Rane.

                                                     Audiência Pública sobre vício em jogos online (“Bets”) e impactos na saúde pública – Ft ZeRosa Filho

Ela destacou também a existência de um canal nacional de teleatendimento que oferece até 13 sessões virtuais antes de encaminhar casos graves (que atingem cerca de 1,2% da população) para o atendimento presencial. “Estamos articulando também com as escolas para trabalhar a prevenção, pois este é um tema multifatorial”, completou.

A audiência também contou com o testemunho de quem viveu o problema no cotidiano. O empresário André Rolim, que já esteve presente na CPI das Bets no Congresso Nacional, se tornou uma voz ativa pela abolição da prática no país após perder o patrimônio.

“Eu perdi o que construí por causa de um algoritmo. Foram quatro meses de internação para conseguir retomar o controle da minha mente. O que a população precisa entender é que não estamos falando de entretenimento, estamos falando de um mecanismo que destroi a dignidade humana. Minha luta hoje é para que ninguém mais passe pelo passei e para que essas plataformas sejam banidas ou rigorosamente controladas “, desabafou Rolim.

Assista à Audiência Pública no YouTube:

Encaminhamentos:

  • Baixar, ler e estudar o projeto 7721 em tramitação no STF.
  • Unir forças entre Câmara, Prefeitura e Sociedade para implementação de campanhas sobre o vício em jogos
  • Além da publicidade, criar uma política de educação financeira nas escolas
  • Contactar o ex-secretário de Educação Idilvan Alencar para contribuição em Brasília voltado ao tema
  • Encaminhar e-mail sobre a Audiência Pública para todos os deputados federais cearenses na colaboração de publicização do tema
  • verificar como anda a articulação em outros territórios, nível Brasil, em relação ao tema
  • utilizar as redes Cucas para a difusão da temática
  • Capacitação dos profissionais da Rede Psicossocial
  • Ampliação dos CAPS
  • Formar um grupo internacional para buscar ideias e apoio a causa
  • Pensar na criação de uma Frente Parlamentar na Câmara de Fortaleza.

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