Por Olívia Flôres de Brás, gestora da Magno Investimentos:
O mercado passou a manhã discutindo o IPCA de maio. O Banco Central provavelmente está mais preocupado com os próximos doze meses. A inflação brasileira mudou de composição, trocou alguns protagonistas, mas continua entregando a mesma mensagem: o trabalho ainda não terminou. O índice avançou 0,58% no mês, acima da expectativa de 0,55%, reforçando a percepção de que a convergência para a meta segue mais lenta e mais difícil do que se imaginava há poucos meses.
O dado mais relevante não está no resultado mensal. Está nos 4,72% acumulados em doze meses. Em abril, esse número era de 4,39%. A inflação não apenas permanece acima do teto da meta. Ela voltou a ganhar altura. O mercado comemora números. O Banco Central observa tendências. E a tendência continua desconfortável.
A composição do índice ajuda a entender o problema. Alimentação e bebidas avançaram 1,33% e responderam por praticamente metade da inflação do mês. Habitação subiu 1,22%, impulsionada principalmente pela energia elétrica. A inflação sempre encontra um caminho para chegar ao orçamento das famílias. Quando comida e energia lideram as altas, o impacto deixa de ser estatístico e passa a ser percebido diariamente por milhões de brasileiros.
Os transportes trouxeram algum alívio, com queda de 0,46%, beneficiados pelo recuo dos combustíveis. Mas inflação estrutural não se resolve com um único grupo em deflação. Os núcleos seguem próximos de 5,4% anualizados e os serviços continuam pressionados. O combustível pode até aliviar a viagem. O problema é que a conta continua esperando na chegada.
A leitura do IPCA também influencia diretamente a próxima decisão do Copom. Há poucos dias o mercado discutia manutenção dos juros. Agora parte dos investidores voltou a precificar possibilidade de corte. O problema é que a inflação de hoje não entrega conforto suficiente para decisões precipitadas. Juros podem até cair por expectativa. Credibilidade não.
Enquanto isso, o cenário internacional oferece algum suporte. As negociações entre Estados Unidos e Irã avançam e aumentam as expectativas de um acordo já nos próximos dias. O reflexo imediato aparece no petróleo. O Brent recua mais de 4% e volta para a região dos US$ 86 por barril. Menos tensão geopolítica significa menor pressão inflacionária global e maior disposição para tomada de risco.
O resultado foi uma sessão positiva nos mercados internacionais. Bolsas asiáticas fecharam em forte alta, os principais índices europeus avançam mais de 2% e os futuros americanos operam no campo positivo. O investidor adora boas notícias. O patrimônio é construído sobrevivendo às ruins. O humor muda rapidamente. Os fundamentos, quase nunca.
No Brasil, o ambiente externo favorável encontrou ativos descontados e uma curva de juros que já carregava bastante prêmio. O real voltou para próximo de R$ 5,10 por dólar, os juros futuros recuaram e o Ibovespa renovou máximas recentes. O investidor estrangeiro continua encontrando uma combinação rara: um dos maiores juros reais do mundo e ativos negociados abaixo do potencial de longo prazo.
Mas existe uma variável que insiste em permanecer no radar. Enquanto o mercado tenta interpretar cada décimo do IPCA, Brasília continua produzindo incertezas fiscais em escala industrial. Projetos com impacto bilionário seguem avançando, o governo busca alternativas para limitar os efeitos e investidores aguardam os próximos capítulos. A matemática não vota, não faz campanha e não ocupa cargos públicos. Ainda assim, continua sendo a força mais poderosa da economia. Neste Dia dos Namorados, a inflação nos lembra uma velha regra dos relacionamentos: quando as desculpas começam a se repetir mais do que os resultados, talvez seja hora de acreditar nos fatos.

Fique por dentro do mundo financeiro das notícias e opiniões que rolam no Ceará, Nordeste e Brasil.