Uma realidade cada vez mais marcante: a pessoa destrava a porta de casa e observa o trânsito intenso de motociclistas com mochilas enormes – as “bags”, como são chamadas pelos trabalhadores e pelas empresas. Ou põe o celular na palma da mão e escolhe um serviço numa lista de aplicativos com funções distintas. A plataformização do trabalho molda o cotidiano dos brasileiros e vem reorganizando e redefinindo relações laborais. Nelas, cada indivíduo passa a se perceber como o responsável pelo próprio sucesso ou, mais frequentemente, pelo fracasso.
O assunto é o tema do livro “O Trabalho na Era da Plataformização: o algoritmo da desigualdade no Brasil”, que será lançado sábado, 11 de julho, na Casa Comum (Rua Nogueira Acioli, 1705 – Centro, Fortaleza/CE), a partir das 10 horas. A autora é a psicóloga social, professora universitária e pós-doutoranda em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP), Mônica Gurjão (foto acima). Ela desembarca em Fortaleza, onde nasceu e iniciou a carreira acadêmica, para compartilhar o resultado da pesquisa de doutorado no programa de Psicologia Social da PUC-SP.
O livro analisa criticamente como plataformas digitais e algoritmos, avançam sobre todos os setores da vida, “não apenas gerenciando tarefas, mas também moldando subjetividades, disciplinando corpos e aprofundando a vulnerabilidade de milhões de trabalhadores”. O debate se mostra mais que atual, uma vez que as ferramentas digitais, mais conhecidas pela praticidade, “vêm redefinindo direitos e produzindo novas formas de exploração e controle” dentro e fora dos ambientes político e jurídico tradicionais.
“No Brasil, esse processo assume contornos ainda mais complexos ao se articular com uma história já marcada por desigualdades estruturais, racismo e precarização do trabalho”, pontua a autora cearense sobre a gravidade do que nos cerca no dia a dia, sob um manto de invisibilidade desses trabalhadores. “Mais do que um diagnóstico, este livro convida à reflexão e ao posicionamento crítico, contribuindo para o debate sobre direitos, justiça social e as possibilidades de construção de um futuro em que o trabalho esteja a serviço da vida, e não o contrário”, conclui.
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