Por Edmilson Maia Jr., professor, historiador e escritor:
Jorge perdeu o primeiro ônibus, mas embarcou a tempo até a casa da mãe para assistir o mais querido no Mundial. O favorito era o escrete inglês, mas quem sabe o time do povo não surpreendia? Viu multidão na rua desde a outra cidade usando as camisas da Nação. A maior carreata da vida foi na Libertadores, os Hermanos sucumbiram aos dois gols na final – nem em evento político dando gasolina tinha tanto carro, moto, caminhão.
Foi sorte ter pegado aquele assento. Viajara de última hora para acompanhar a decisão. Passou o viaduto, o Túnel, o Mercado, chegando na capital. Reparou que o cambão não subiu o segundo Overdrive. “Mudou a rota?” Começou a levantar, ia falar com o motorista, quando viu o brilho do sol que reluziu esplendoroso na pistola prata cravada em mãos apontadas para cima, girando em varredura do veículo. “Lá vamos nós”. Um jovem usando camisa de grife e mangas compridas, calça de marca, tênis importado, pele clara, com duas mochilas nas costas e a arma para o alto, berrou ameaçadoramente:
– Todo mundo quieto! Dirigidor, não para não. Vai direto, não pisca o farol. Só acelera! Vamos, todo mundo, celular e carteira na mão, ou papoco na hora, passo fogo.
Ele andou pelo ônibus com os passageiros colocando seus bens nas suas bolsas. Uma mulher jovem, com um filho recém-nascido envolto em manta azul, clamou:
– Moço, vá simbora, moço. Vá simbora, moço. Tá bom? Você já fez o que queria.
O ônibus ia, ia. Voado. A paisagem de pedra fluía célere pelas vidraças.
– “Pequeno”, passa fogo se ele piscar os faróis, der algum sinal. Passa fogo nele!
Havia um “Pequeno”? Seria blefe? Teria outro armado por trás da cadeira vazia do cobrador? Devia ter. O motorista nem olhava para trás ou lados. Não o enxergava, porém devia ter o tal “Pequeno” apontando para o condutor. Devia ter. Sim, devia…
– Moço, vá simbora, por favor, em nome de Jesus. Em nome do meu bebê.
Veio o choro, e as mesmas palavras, o filhinho no colo. Ela rezava em nome de Jesus, repetia palavras no desespero, outras ininteligíveis, em línguas, em transe.
Ergueu-se, marchou ao sabor dos tremeliques e buracos, em direção ao ladrão. Estendeu os braços, o recém-nascido nas mãos como Moisés entregue no cesto no rio, ao relento, ou Isaque, à beira da adaga, no sacrifício diante dos cordeiros cândidos, ela ofereceu seu rebento ao homem que ascendeu a pistola diretamente para a fronte do bebezinho.
– Senta, senta. Sente, senhora, por favor sente, se acalme! – todos gritaram.
Um rapaz disse com serenidade na voz:
– Me dê seu filho, fique aí que eu vou pegar a senhora – firmou-se de pé.
– Parado aí, héroi, quer morrer? – o bem-vestido aprumou a arma para o moço que recuou, assentou – eu faço a tua mãe chorar em um segundo! Senta aí, seu merda!
Antes de voltar a cadeira o rapaz tocara no ombro da crente. Fez com que recuasse junto, desse a cria para uma outra moça sentadinha, rezando baixinho, chorando.
O ônibus desacelerando, desviou por ruelas detrás da avenida principal do bairro de lojas exóticas e sanduicharias com carne importada. Estacionaram numa rua sem saída estreitinha que nem soube como o bus entrou lá. Viu o vulto pulando na catraca, veloz pela abertura dianteira escafedeu-se. Observou-o correndo da ruela, as mochilas nas costas – “Sangue de Jesus tem poder!” – Não viu o “Pequeno”. Não havia Pequeno?!?!
Motorista pediu que esperassem a PM. “Fico é nada”. Pulou a catraca, desceu pela porta da frente aberta, todos o seguiram até uma mercearia. Relataram o ocorrido.
Um guri veio ligeiro doutra rua dizendo que tinham pegado o bandido. Alguém encabeçou:
– Lincha, lincha – vociferou a turba encolerizada que se formou.
Brotaram paus, pedregulhos e facões. Jorge quis sumir dali. Quase se jogou por cima de um taxi que passava pela esquina para retornar a via. Estranhamente parou. Foi à janela e pediu para ir ao shopping próximo. No caminho explicou-se. Quis quitar a corrida, o velho taxista não aceitou: “O pior já passou, precisa pagar nada não, amigo”.
Jorge escondeu o chip, dinheiro, cartões e documentos, nas meias, no banheiro do shopping. A topic veio vaguinha. Recordou da decisão… Devia estar no intervalo.
Não escutou em nenhum momento barulho de fogos. Zero a zero. Chegou na mãe bem no início do segundo tempo. Tinha a chave, entrou rápido. Ninguém em casa. Melhor assim. Respirou fundo e ligou logo a TV:

“Gooooooooooooooooooooooooooooooooooool!!!!”.
Jorge quis quebrar foi tudo dentro de casa.
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Edmilson Alves Maia Júnior nasceu em 1977, em Fortaleza (CE), onde morou até o início dos anos 2000. Foi professor substituto nos cursos de História da Uece e UFC. É professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará desde 2008, na cidade de Quixadá, na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), e doutor em História pela UFMG. Mestre e graduado em História pela Universidade Federal do Ceará, onde é professor do Programa de Pós-Graduação Profissional em Ensino de História. Coordena o Programa de Pós-Graduação em História e Letras da Feclesc. Tem crônicas e contos publicados em sites e livro físico.


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