Por Edmilson Maia Jr., professor, historiador e escritor:
O velho poster da Lotus Negra no quarto de Rubens desvanecia em meio ao velório por todo o país. Jamais veria nada igual ao luto daqueles dias. Descobriria, a partir de agosto, na Universidade, que só a despedida de Vargas tinha estacado o tempo outrossim. Rubinho, por enquanto, sabia de Senna, dos milagrosos domingos das corridas e títulos, primos, primas, tios no futebol de botão na casa da Avó antes ou depois do tema da vitória. Ele que nem acompanhava o tricampeão nos últimos meses, preocupado com o vestibular pois levara pau ano passado e Mãinha e Papai mandavam estudar. Mas, desde o fatídico 1̊ de maio de 1994, Rubim, o povo inteiro, choravam que nem neném. O vizinho caminhoneiro, a turma do baseado, aposentados, Bombeiros, PMs, coroas, meninas, guris, garis, burgos, alamedas, BH, Sampa, Rio, NE, Norte e Sul, centros, interiores, o restante, acompanhavam o caixão pela TV, oceanos de órfãs multidões em lágrimas.
Seu imenso vazio se dissipando de nova alegria em alegria: primeiro a aprovação no Vestibular, deixando os pais em êxtase, depois veio enfim o tetra no futebol. No dia 17 de julho, Baggio bateu um field goal por cima das traves. Para surpresa do Rondinelli, o chapa dos rachas na quadra nas madrugadas e meio-dia, a toda hora, das primeiras biritas:
– Não acredito nisso, caramba, não acredito – repetia com os olhos esbugalhados.
– Foi para fora, sim, Rondi, ele embarcou… – disse sentado no sofá da sala.
– Não pode ser. Não pode ser. O Baggio queria ser o Zico quando era menino.
– Pronto, conseguiu! – o velho Rubens flamenguista falou com desgosto e ironia.
No primeiro semestre da faculdade, Rubim logo se organizara para a campanha presidencial, se politizou de vez com a dialética de Brecht cuspindo fogo e futuro, distribuiu no bairro o material da Sede do Partido vizinha à universidade. De nada adiantou. Não se podia ter tudo, teimaria para sempre com isso. Senna se fora. Teve o tetra da seleção. Perdeu a eleição que nem em 1989, quando era pivete e só torceu por ele lá – influência da tia de esquerda, do rock por todo canto, do fim da ditadura, tanta ilusão.
Seguia ansiando tudo, perdendo e ganhando, mais perdendo, como em 98. A formatura chegando e a pós pelo caminho da política, de novo ela. Já era filiado. No 12 de julho, pleno domingão de final de copa, ele e toda a delegação chegaram de ônibus para a 50̊̊a. Reunião Anual da SBPC, em Natal, foram direto para um bar lotado acompanhar o jogão, crentes que massacrariam a França. Então os insólitos 3 a zero.
Começaram a dizer que o time se vendeu. Passariam a semana do Congresso, a vida toda, discutindo por quanto, pelo quê, a seleção entregou o título. Não era possível a derrota após a semifinal com a temida Holanda, que assistira também com o Rondinelli.
Ronaldo era corno? Rubens e Vera moravam juntos desde o fim do primeiro semestre da faculdade! Perderiam além do penta, a eleição juntos de novo contra o tucano. A diferença nem foi tão grande, a reeleição arranjada parecia inevitável e foi porque assim fizeram parecer.
Continuou, teve um casal, pintava que teria tudo, ou quase: divorciaria de Verinha. No 30 de junho de 2002, Rubim trabalhava longe como substituto e chegou foi cedo para assistir à final – tomando café da manhã, merenda com gosto de infância, a mãe toda feliz:
– Eu nem acreditei quando tu disseste que vinha. Cadê meus netinhos?
– Muito bem, tinha que vir mesmo, para que eu te criei? – o pai provocou.
– Não perdia nunca, jamais será 70, eu sei, mas é melhor que 94, garanto, velhote.
Comendo queijo, cuscuz com ovo molhado no café preto, vibraram com os gols do Fenômeno, nas participações de Rivaldo, Cafu com a taça do penta, todos aqueles astros, o menino Kaká que o pai chamava de craque estabanado. Só que o melhor de 2002 é que finalmente a esperança venceria o medo – choraria de novo como criança, mas de alegria, no fim do ano, na Avenida. Só não sabia que nunca mais teria final de copa, com Rondi, Vera, ou com o pai… Esse que infartou seis meses após o baile de Zizou nas quartas – o velho adorava o cd do Reginaldo Rossi cantando a escalação dos les bleus, gastando seu francês, e abalava com Zinedine Zidane, seu carrasco favorito junto com Dieguito – ficaria com a bendita interrogação na cabeça pelo resto da vida: o que o pai diria de Messi?
Depois de 2002, nenhuma final era com ninguém, porém Rubens Filho conquistaria as eleições: 2006, 2010, 2014. Até suas certezas desmoronarem. Estudara golpes e conspirações, passou a vivê-los – no crepúsculo infeliz do 17 de abril telefonou para antiga orientadora por apoio, recebeu foi desalento: a catedrática tão assombrada quanto ele. Teriam nova esperança, após o fundo do poço em 2018, ele voltou em 2022.
Antes, Rondinelli papocou na pandemia. Aos 50, Rubim já nem aspirava o infinito. Suas crias, Maria Eduarda e Miguel, cresceram sem o avô, sem Ronaldos, Garrincha, Pelé, Senna, com um restinho do Barba. Veriam uma final? Vinha a eleição de 26! Hexa, quiçá no futuro, nova ilusão. O Professor Rubens agora torcia, sobretudo, que a fome de tudo seguisse nos que chegavam, semeando desejos e dragões, contra tabus e o impossível.
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Edmilson Alves Maia Júnior nasceu em 1977, em Fortaleza (CE), onde morou até o início dos anos 2000. Foi professor substituto nos cursos de História da Uece e UFC. É professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará desde 2008, na cidade de Quixadá, na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), e doutor em História pela UFMG. Mestre e graduado em História pela Universidade Federal do Ceará, onde é professor do Programa de Pós-Graduação Profissional em Ensino de História. Coordena o Programa de Pós-Graduação em História e Letras da Feclesc. Tem crônicas e contos publicados em sites e livro físico.

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