Por Edmilson Maia Jr., professor universitário, historiador e escritor:
– Eu matei muito caititu nessa vida. Dos grandes! Mirava de longe, papocava e punha no lombo do cavalo selado. Depois assava no sal para comer.
– Desde cedo desbravei sertão afora. A pé, na montaria. Era moça, devia ter nascido era guri. Só fazia o que menino-homi fazia!
– Um dia meu irmão caçula açoitou no potro alazão assim com o chicote: “Yaaaaaaaaaaaaaaaaah! Quero saber se você cavalga é agora, menina-macho”!
– O bicho saiu desembestado, nem o cão segurava: quebrei os dois braços na queda! Tinha 13. Meu irmão gritou assustado: “Fale para papai não que fui eu!”.
– Não disse, paizinho matava de uma sova, falei que caí sozinha. Pai cismou, aquele desespero enorme. Correram por socorro, nos pampas, pelas capoeiras, eu morrendo de dor, destroçada, berrando.
– Quando sarei, um ano depois, continuei caçando caititu. Andavam em bando, fazendo “Trac, trac, trac!”. Uma coisa medonha, os cachorros encurralavam e eu:
“Pouw!” com o bacamarte. Era para eu ter vindo homem a esse mundo. Deus não quis.
– Papai alertava: “Moleca, vai morrer é cedo, é atrevida que nem um cabra! Te sapecam de bordoada, ou te furam de faca ou bala, fedelha desbocada! Arrependo ter te ensinado a montar, atirar, salgar, a não baixar a cabeça, minha filha.”
– Ele quem se foi, de uma febre, partiu novo, tinha nem 35. A gente vendeu a fazenda e veio simbora. Ninguém sabe nada da vida, nem quem fica nem quem vai. Tenho 80 e pouco. Mãezinha foi com 104, caducando, misturava as conversas, toda indecente.
– Quando fomos para as terras da família dela, uns 60 anos atrás, eu andei numa carretona lotada de gente. Um homem perguntou: “Tu é de onde, Piá?”
– Dos Rio Grande, galado! Gaúcho junto com Potiguar, tchê!
“– Ora mais, que o povão comenta que essas bandas aí é a “terra dos cu-rajado”!”
– O teu também é rajado!
– Ele veio para cima. Botei a mão na cintura, a adaga alumiou à vista:
“– Venha, seu cu-rajado!”
Ficou no canto dele, acabrunhado, o imbecil.
– Noutro tempo, um sujeito da minha terrinha, eu morava aqui há mais de 40 anos e voltei para passear, e ele quis saber:
“– Onde vives hoje?” – Eu respondi, ele devolveu: – “Bah, é o lugar onde até as pedras são galinha!”
– A única galinha que eu encontrei lá esses anos todos foi a senhora sua mãe!
Saiu assim, desconfiado, rabo rajado entre as pernas. Meu mais velho sussurrou:
– “Vamos que o homem foi buscar algo para matar a senhora, mamãe!”
– Foi nada, isso é um frouxo, mas vamos que está tarde.
– Não sei se foi buscar, nunca vi de novo. Sempre pode ter um calhau no destino da gente, né, meu povo? Tem uns 30 anos daquele caso na praça. Lembra, Seu Genoíno?
– Pouco, Dona Catinha! Conte como foi. – disse o motorista aproximando-se, na mais alta velocidade permitida, dos limites do município.
– Na Praça do Altar, a da TV e do Chafariz, um bêbado perguntou a outro:
– Tu é de onde?
– Rio Grande do…
– É a “terra dos cu-rajado”!
– Pois o sujeito foi em casa, esse foi mesmo, e catou um revólver e deu seis tiros nas fuças do perguntador. Pode isso? Por causa dessa besteira. Todo mundo tem o cu rajado! Homem tem, mulher tem, criança tem, velho tem! Uns tem mais que outros e o cu vai ficando cada vez mais rajado com o andamento da vida, é natural isso… Mas só sei que todo mundo tem o cu rajado!
O carro silenciou um tempo, cercado pela atmosfera de cores do dia nascente.
– Meu povo, essa foi minha saga: fui caititu valente na “terra dos cu-rajado”!
– Papai teve seis filhos, só eu de moça e eu podia ter sido rapaz. Porém estava escrito que eu tinha que ser era mulher. E tive foi cinco filhos varão.
– Antes, fugi do casório, vivi romance proibido noutra região, Tio Gonzaga me encontrou, encurralou: “Sua mãe morre de desgosto, sobrinha. Tenha juízo, Catinha!”
– Voltei, casei-me com o Ambrósio.
– Esses meus olhos verdes foram que nem açude barrento sem fundo: muita gente mergulhou e se perdeu, sabiam? O que será que houve com Mocinha? Formosura medonha…
– Mas a senhora criou uma menina-donzela, né? A Cidoca! Conte mais essa para nós! – Genoíno interrompeu-a, enquanto fazia a curva para adentrar no bairro da anciã.
– Foi! A Aparecida! Botaram na minha porta numa caixa de papelão, pensei que era gato ou cachorro. Era uma menina-fêmea! Filhote com alguns meses. Venho da casa de Cidoca na capital, ela foi embora daqui um tempão. Quase não me deixa regressar, chorou: “Mamãe, more comigo!”. Amo todos meus filhos, só que ela me trata melhor, filha-mulher é que é carinhosa. Não pude ficar. Quero sentir o pé no meu chão, cuidar de minhas crias, descansar na minha casinha.
– Olha quem está na calçada para me receber? Meu filho do meio: Guariúcho. Roliço, moreno, igual um potinho. Barrigudo, peitos grandes, está uma mulher buchuda todinha!
Guariúcho pegou as malas da mãe que se despediu dos demais passageiros do táxi-fretado:
– Desculpem as minhas prosas sem futuro de velha saliente gagá. Até a próxima vida, meu povo, que nessa a gente não se cruza de novo, não é?
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Edmilson Alves Maia Júnior nasceu em 1977, em Fortaleza (CE), onde morou até o início dos anos 2000. Foi professor substituto nos cursos de História da Uece e UFC. É professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará desde 2008, na cidade de Quixadá, na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), e doutor em História pela UFMG. Mestre e graduado em História pela Universidade Federal do Ceará, onde é professor do Programa de Pós-Graduação Profissional em Ensino de História. Coordena o Programa de Pós-Graduação em História e Letras da Feclesc. Tem crônicas e contos publicados em sites e livro físico.


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