Por Tuty Osório, escritora e jornalista:
Morei em Portugal entre 1984 e 1988. Fui para a Universidade Nova de Lisboa, estudar Comunicação Social. Também realizava o desejo de levar adiante um pequeno projeto de vida na terra onde nasci. Fiz grandes amizades. Aprendi muito numa Academia repleta de rigor e especulações teóricas consistentes, embriagadas da liberdade recém conquistada, 10 anos depois de cortadas as amarras do atraso intelectual, entre outros, impostos pela ditadura salazarista.
Tinha eu uma dificuldade que turvou a fruição mais plena daqueles anos. Portuguesa e brasileira, a um só tempo, carecia do estrangeirismo útil à aceitação de certas imposições do exílio às avessas. Íntima da história e da cultura, recusava-me a ser deixada de lado por ser a de fora, a que não esteve sempre, a que viveu ao longe a identidade do lugar. Nessas condições, era impossível viver um pertencimento superficial já que estava demasiado implicada pelo nascimento e pelas referências que jamais perdi, transmito às novas gerações, alimento, cultivo.
Amando o Brasil incondicionalmente – estado de amante feliz -, sendo brasileira de corpo, alma, mente, a verdade é que nunca deixei de ser portuguesa. Essa proximidade extrema impedia-me de me relacionar com o país sem me aprofundar nas camadas mais recônditas de seu drama- por vezes épico, por vezes banal, sempre intenso.
Algo semelhante acontece com a avaliação das atuais pesquisas eleitorais. Como sou estudiosa do tema há mais de 30 anos, não consigo analisar pelos sintomas expressos em números desconexos, associados às especulações do momento, política transformada em teatro da pior qualidade. Amostras expandidas sem explicações técnicas do que isso representa.
Distribuições por território virtual sem transparência de critérios. Fatores de ponderação sem esclarecer o verdadeiro significado de ponderar e como se
chega a cada fator. Semelhança não é realidade. Toda a realidade é mediada pelo repertório coletivo. Chamar de direita e de esquerda aquilo que não se sabe nomear,
definindo como polarização a briga infantil (porém perigosa) entre moderados e extremistas da moral, fantasiada de bons costumes, é temerário e pode nos lançar no abismo. É prudente exigir pesquisas que atendam aos controles mínimos de estudo das tendências. Isolar, observar, descrever, interpretar sobre dados seguros, cuidadosamente levantados. A mistificação, o personalismo, a alienação; muitíssimo más companhias para se sair por aí. O acaso não vai nos proteger…
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Tuty Osório é jornalista, especialista em pesquisa qualitativa e escritora. São de sua lavra QUANDO FEVEREIRO CHEGOU (contos de 2022);
SÔNIA VALÉRIA, A CABULOSA (quadrinhos com desenhos de Manu Coelho de 2023) e MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA, dez crônicas, um conto e um ponto (crônicas e contos, também de 2023).
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SÔNIA VALÉRIA, A CABULOSA
QUANDO FEVEREIRO CHEGOU
MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA
O livro AS CRÔNICAS DA TUTY também está disponível em edição impressa, com publicadas, inéditas, textos críticos e haicais.


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