Por Ana Márcia Diógenes, jornalista, escritora e professora:
Alguns podem ter pensando que digitei errado a palavra, mas está escrita corretamente. Não é sobre felicidade que eu quero falar, é felicitância mesmo. Várias delas, aliás, principalmente as pequenas, as tais felicitâncias.
Enquanto entre as definições possíveis, um dos significados de felicidade seria um estado durável de satisfação e bem-estar, felicitância é o gostar do processo de viver, é o refletir, o ajustar-se, o celebrar.
Não é como um “jogo do contente” descrito no livro Poliana, de 1913, escrito por Eleanor H. Porter. O jogo prevê que se deve buscar algo de positivo, independentemente do que está acontecendo na vida da pessoa. A personagem era uma menina órfã que precisava morar com uma tia muito rigorosa.
Na minha concepção, uma pessoa felicitante é aquela que se permite reconhecer e conviver com dores e prazeres que a vida traz. Segue nos desafios sem precisar se iludir de que vai encontrar algo positivo em situações desagradáveis. E é esta permanência interior, este atracar em si nas tempestades, que nos permite lidar melhor com todos os sentimentos.
A felicitância é objeto do meu primeiro livro, “De esfulepante a felicitante, uma questão de gentileza” (Ed. Dummar), de 2017, escrito para pré e adolescentes. Na história, uma menina tenta descobrir o que causa mal humor em casa, para atender a uma tarefa escolar. O esfulepante, para os que ficaram curiosos, é o chato, triste, pesado, ruim.

Lembrei das felicitâncias ao passar na sala de casa, em um dia como qualquer outro, por uma peça linda de cerâmica (está na foto no alto desta crônica), uma surpresa que recebi há alguns anos da prima-artista Conceição Malveira Diógenes. Ela fez a peça e gravou “felicitâncias” na argila. Eu e o Miguel, meu parceiro de vida, a enchemos de conchas e búzios, no correr do tempo e dos passeios nas praias por aí.
Colocar na cerâmica um pedacinho do mar trazido em meio a uma boa conversa, curtir o arranjo de recordações que fomos formando, lembrar a surpresa de receber a peça tão cheia de afeto… são felicitâncias do cotidiano.
Podem ser mínimas para quem só consegue se abastecer em máximos, mas são máximas para quem aprende a se inspirar em mínimos.
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Ana Márcia Diógenes é graduada em Comunicação Social (UFC), especialista em Responsabilidade Social e em Psicologia Positiva e mestra em Planejamento e Políticas Públicas. É professora de Jornalismo (pós-graduação), escritora e consultora em comunicação e direitos para a infância e juventude.


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