Ronaldo Caminha: “Onde nasceu o Samba?”

Por Ronaldo Caminha, economista, músico e estudioso da arte e da cultura brasileiras – o autor escreve sempre aos sábados sobre música, artistas e histórias:

O Samba nasceu na Bahia, ou no Rio de Janeiro? No morro ou na cidade? Eis aí uma polêmica sem data para acabar, e nem se sabe quando e como começou. Ruy Castro, escritor, historiador e biógrafo renomado, garante que foi no centro do Rio, contrariando alguns que dizem que foi no morro.

O poeta Vinicius de Moraes, no “Samba da Benção”, tendo como parceiro o violonista Baden Powell, expõe sua tese:

“…Pois o samba nasceu lá na Bahia

 E se hoje ele é branco na poesia,

Ele é negro demais no coração”

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Mas o que importa a localização geográfica, quando se trata do mesmo país? Poderia ter sido no Ceará, Pernambuco ou Minas; afinal, foram os pretos africanos que aqui chegaram em grande número e foram espalhados em vários estados, sob um longo e perverso período de escravidão – 350 anos – que ergueram com seu batuque e um forte sentimento de luta e resistência os pilares do Samba.

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O compositor Noel Rosa se valeu de sua poesia para ser definitivo:

“O samba, na realidade,

Não vem do morro nem lá da cidade,

Sambar é chorar de alegria,

É sorrir de nostalgia dentro da melodia…

E quem suportar uma paixão

Sentirá que o samba então

Nasce no coração”

(trechos da música “Feitio de Oração” – Noel Rosa e Vadico, cantado abaixo pelo espetacular João Nogueira)   

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Caetano Veloso também mandou poesia em “Desde que o Samba é Samba”:

“O samba é pai do prazer,

O samba é filho da dor,

O grande poder transformador”

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No final do Século XIX e início do XX, primeiros anos depois da  Abolição da Escravatura, muitos escravos alforriados e seus descendentes desembarcaram em terras cariocas, à época, a capital brasileira. Vindos de vários estados, pois o Rio de Janeiro, por ser a Capital, poderia oferecer-lhes mais oportunidades de trabalho. Mas a verdade foi outra bem diferente: estavam livres, mas sem saber o que fazer da vida; as fazendas e engenhos, com a Lei Áurea, os mandaram para a rua sem ocupação ou alternativa para buscarem o próprio sustento. Começaram a se juntar em barracos improvisados e se virando do jeito que dava; muito jogo de cintura, pernadas e capoeira ao som de berimbaus e atabaques, em busca de alguns trocados dos passantes, dançando a dança da resistência no baile da vida.

A comunidade preta foi crescendo em pleno centro da cidade e se espalhando por diversos bairros, ficando conhecida historicamente como pequena África, pela predominância negra entre os habitantes.

Os pontos de aglutinação dessa comunidade foram os terreiros de candomblé das tias baianas, de descendência africana, muito conhecidas na história musical brasileira – Ciata, Amélia e Perciliana –, que reuniam os amigos e parentes da vizinhança de pele escura para cantar suas cantigas em iorubá, ritos religiosos e danças dos seus ancestrais, como  necessidade de manterem viva a cultura de sua gente, mesmo estando num país distante e depois de tanto sofrimento no cativeiro.

O samba surgiu nesse ambiente, em meio às batidas dos atabaques e o balanço dos ganzás, que faziam corpos e almas marcadas dançarem suas alegrias e dores.  Entre Lundus, Jongos, Coco e Emboladas, nossa música foi tomando forma e independência, ora sorrindo ora chorando, se transformando e resistindo.

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