A entrada em vigor do acordo de livre comércio entre o Mercosul e Singapura, em 1º de agosto, e o avanço da implementação do tratado com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), formada por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein, ampliam o horizonte para empresas brasileiras que buscam diversificar mercados. Para o Ceará, que já possui relações comerciais com integrantes desses blocos, a abertura pode representar uma oportunidade de ampliar vendas externas e atrair novos negócios.
O acordo Mercosul-Singapura já está em vigor para o Brasil. Já o acordo com a EFTA, assinado em setembro de 2025, ainda passa pelas etapas necessárias para sua entrada em vigor. Quando implementado, o tratado deverá ampliar o acesso de produtos do Mercosul a mercados de alto poder aquisitivo. Segundo o governo federal, quase 99% do valor das exportações brasileiras para a EFTA terão acesso em livre comércio, considerando os universos agrícola e industrial.
No caso cearense, a relação com esses mercados já existe. Em 2025, o Ceará exportou US$ 1,6 milhão para a Suíça, alta de 23,7% em relação ao ano anterior, e importou US$ 2,5 milhões do país. Entre os produtos vendidos estão obras de pedra e gesso, preparações de produtos hortícolas, calçados e vestuário. Com a Noruega, o Estado também já comercializa produtos como calçados, combustíveis minerais e produtos hortícolas.
A Suíça, inclusive, já aparece entre os mercados estratégicos para a pauta exportadora cearense. Em 2025, o Ceará encerrou o ano com US$ 2,28 bilhões em exportações, crescimento de 55,6%, com forte participação da indústria de ferro e aço. A siderurgia estadual alcançou US$ 1,18 bilhão em vendas externas e teve a Suíça entre os mercados atendidos.
Onde estão as oportunidades para o Ceará
Para o Estado, os novos acordos podem favorecer tanto setores que já possuem presença internacional quanto segmentos que ainda exportam pouco. O perfil da produção cearense cria oportunidades especialmente em alimentos, frutas, calçados, rochas ornamentais, produtos industrializados, siderurgia e produtos da cadeia agroindustrial.
O próprio desenho do acordo Mercosul-EFTA prevê novas oportunidades para carnes, mel, frutas como banana e melão, sucos, álcool etílico, pedras ornamentais e semimanufaturados de ferro e aço, entre outros produtos. São segmentos que dialogam diretamente com a estrutura produtiva cearense.
“A oportunidade para o Ceará está justamente em transformar uma relação comercial que já existe em uma estratégia de expansão. Temos produtos competitivos, infraestrutura portuária e empresas que já conhecem o mercado internacional. O próximo passo é identificar quais produtos podem ganhar escala nesses mercados e quais precisam de adequação para atender às exigências de cada destino”, afirma Augusto Fernandes, CEO da JM Negócios Internacionais e especialista em comércio exterior.
Singapura também representa uma frente de diversificação. O país é um importante hub comercial e logístico asiático e já aparece na pauta de exportações cearenses, ainda que com valores menores. Em 2024, por exemplo, Singapura respondeu por 63% das vendas externas cearenses do setor de combustíveis minerais, que somaram US$ 8,65 milhões naquele ano. Também houve abertura de fluxos de produtos cearenses para o mercado de Singapura em segmentos como pescados e preparações alimentícias.
O que já existe e o que pode chegar
O cenário mostra que os acordos não partem de uma relação comercial inexistente. O Ceará já vende produtos para esses mercados, mas ainda há espaço para ampliar volume, variedade e valor agregado.
A diferença pode estar justamente na diversificação. Em 2025, o Estado exportou para 150 países e ampliou o número de produtos comercializados no exterior de 1.695 para 1.747 itens. Apesar do avanço, a pauta ainda é concentrada: somente o ferro fundido, ferro e aço responderam por US$ 1,18 bilhão das exportações estaduais.
“Existe uma diferença entre ter um mercado como destino e estar efetivamente inserido naquele mercado. O acordo pode reduzir barreiras e melhorar a competitividade, mas a empresa precisa ter capacidade produtiva, certificações, estratégia comercial e conhecimento das exigências do comprador. A oportunidade maior está em sair de operações pontuais e construir presença recorrente”, explica Fernandes.
Além do comércio de bens, os acordos podem estimular investimentos, parcerias empresariais e integração em cadeias internacionais. No caso do acordo Mercosul-EFTA, estimativas do governo federal apontam potencial de acrescentar R$ 2,69 bilhões ao PIB brasileiro até 2044, atrair R$ 660 milhões em novos investimentos e elevar as exportações em R$ 3,34 bilhões.
Ceará tem vantagem logística no Nordeste
O Ceará também apresenta uma vantagem competitiva dentro do Nordeste. O Complexo Industrial e Portuário do Pecém, associado à ZPE e à localização geográfica do Estado, oferece uma estrutura que pode facilitar conexões com Europa, América do Norte e Ásia.
Em 2025, São Gonçalo do Amarante, onde está localizado o Pecém, respondeu por 52,8% das exportações cearenses, com US$ 1,21 bilhão. Ao todo, 64 municípios do Estado realizaram exportações no ano.
Esse posicionamento logístico ganha relevância quando se considera que o comércio com os novos parceiros envolve mercados geograficamente distantes. Para Fernandes, o Ceará pode utilizar sua infraestrutura como instrumento de atração de empresas interessadas em exportar pelo Nordeste.
“O Ceará tem uma característica que pode fazer diferença: não é apenas um produtor, mas também possui uma infraestrutura de conexão internacional. O Pecém e a ZPE podem funcionar como plataformas para empresas cearenses e de outros estados nordestinos que queiram acessar esses mercados. Isso cria uma oportunidade que vai além da exportação de produtos e envolve a atração de investimentos e a formação de cadeias produtivas”, avalia.
Cuidados para aproveitar os acordos
Apesar do potencial, a redução ou eliminação de tarifas não significa que qualquer produto terá acesso automático ou que a operação será necessariamente mais competitiva. As empresas precisam observar as regras específicas de cada acordo, principalmente os critérios de origem, classificação fiscal, documentação e requisitos sanitários e técnicos.
Fernandes chama atenção para o Certificado de Origem, que pode ser determinante para a obtenção da preferência tarifária. Também entram nessa equação o correto enquadramento fiscal da mercadoria, a formação do preço de exportação, os custos de transporte e seguro e o cumprimento dos procedimentos aduaneiros.
“Uma empresa pode ter um produto competitivo e ainda assim perder margem por uma operação mal planejada. É preciso conhecer a regra de origem, verificar se a mercadoria efetivamente se enquadra na preferência tarifária, organizar a documentação e calcular o custo logístico completo. O benefício do acordo precisa ser analisado dentro da operação como um todo”, afirma.
O acordo com Singapura já conta, inclusive, com manuais específicos elaborados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) para orientar exportadores e importadores sobre regras de origem e desgravação tarifária.
Um mercado regional a ser explorado
O potencial não se limita às empresas cearenses. O Estado pode funcionar como uma porta de entrada logística para negócios de outros estados do Nordeste, especialmente em cadeias que tenham conexão com a infraestrutura do Pecém.
Ao mesmo tempo, a experiência cearense pode servir como referência para uma estratégia regional de diversificação de mercados. O fortalecimento das exportações, a ampliação da base de empresas exportadoras e a utilização da infraestrutura portuária podem contribuir para inserir produtos nordestinos em mercados que historicamente recebem maior volume de mercadorias de outras regiões brasileiras.
“O Nordeste ainda tem muito espaço para ampliar sua participação no comércio internacional. O Ceará pode assumir um papel de plataforma regional porque reúne indústria, agroindústria, mineração, infraestrutura portuária e uma localização estratégica. Mas isso exige profissionalização das empresas e uma visão de comércio exterior como estratégia de longo prazo, e não apenas como oportunidade pontual”, conclui Augusto Fernandes.

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