A Crônica do Edmilson Maia Jr.: “Luís e Osvaldo”

Por Edmilson Maia Jr., professor universitário, historiador e escritor:

Defronte à Faculdade, o Ato de Protesto contrário ao corte de 16 por cento do orçamento da Educação Brasileira fracassava. Previsto para as 8 horas da manhã, já batia 9:30, somente poucas sindicalistas da educação e prefeitura, junto com alguns gatos pingados do recém-refundado Centro Único Acadêmico dos Cursos, marcavam presença.

Como realizariam a Caminhada rumo a principal praça da cidade para o Piquete? Olhavam um para a cara um do outro, para esquinas longínquas, horizontes distantes, para os lados, céu e o chão, enquanto os dois carros de som tocavam Vandré. 

Serelepe, o atual diretor da Faculdade, Luís SanThyago, chapeuzinho cangaceiro nas mãos, barriga saliente, porém passo ligeiro como quem ia atrasado para a História, apareceu:

– Despachei agora os ofícios. Desculpem o atraso. Não era 8, 8 e meia? Bora!

Ficaram de novo olhando uns para os outros, as fãs cinquentonas de Santhyago, sindicalistas desde a época áurea dos movimentos nos 70 e 80, abraçaram-no, riram
efusivamente para o quase octogenário que devolveu largo sorriso e abraços maiores.  Até que pela segunda e última vez, Santhyago provocou os do recinto ao céu aberto no
meio da rua, militantes na calçada apesar da escolta da guarda de trânsito garantindo a marcha:

– Venham para rua! Bora, meu povo! Já passou da hora. Cri…Cri…Cri…Cri…

Chapéu posto, presente do ex-presidente da república, deu passo firme na avenida, não sem antes convocar Osvaldo, participante da refundação do C.A unificado e bolsista IC do projeto, coordenado pela professora Ana Tristão, sobre o surgimento da Faculdade:

– Vamos, baixinho, que tu és da peleia, veio lá do Conselheiro.

O jovem negro, alto, magricela, de 19 anos, que vendia, antes da Pedagogia, pães em cesto do tamanho dele, pendurado em uma moto, se equilibrando sabe-se como pelos distritos e sítios, foi prontamente sem vacilar. Os dois carros de som dos sindicatos idem.

Sancho Pança à frente e moço quixote escudeiro iam na via central do município. Nessa Avenida Principal, Luís SanThyago era saudado a todo instante passando em frente a colégios, padarias, calçadas altas, ruas perpendiculares, nas casas, portas e janelas abertas, pessoas nas lojas e esquinas, as vezes gritavam, batiam palmas:

– Salve SanThyago! Viva professor! Quanto tempo! A luta continua, Luís! Isso aí!

Nem tudo eram flores – Osvaldo chegou a ouvir grupinho de velhotes e rapazes:

– Valha, o SanThyago ainda é vivo?!? E arrumando confusão, ainda com essas estripulias no meio da rua? Velho safado, não se emenda, doido para ir preso de novo!

Luís cumprimentava todos no trajeto, até os detratores que sorriam encabulados pelo ancião resiliente e bem-humorado. Há 15 minutos caminhavam, o bolsista pensou na entrevista transcrita, especulou o que passaria pela cabeça do velho mestre ali agora.

Recordou do périplo que fizeram ano passado, o C.A junto, por faculdades e institutos, no debate político, vaiados, ouvindo: “Sem partido, sem partido!”. Nessa mesma véspera da eleição, na capital, SanThyago segurou, para que não pulasse do primeiro andar do anfiteatro universitário, um rapaz coberto de rosários, de manto marrom, brasão medieval, que gritava, aos tremeliques, “Nossa bandeira jamais será vermelha! Nossa bandeira jamais será vermelha!” – ele tinha invadido uma aula, sobre o Golpe de 2016, com uns 10 jovens vestidos iguais a ele; de outra vez inventaram anonimamente, pelas redes sociais, Luís na lista de comunistas a serem demitidos e mentiram que tinha instalado uma “sala das drogas” na Faculdade; teve também quando sujeitos de uma turma, seguidores do Marreco – o Batoré do mal metido a Batman – reivindicaram neutralidade e autores escravocratas como referências nas aulas…

Não, nada disso! Com certeza recordava dos pais que saíram de Recife para BH após Gregório Bezerra arrastado pelas ruas nas primeiras horas do Golpe de 1964. Transferiram o trabalho de base do método Paulo Freire para periferias mineiras. Lá SanThyago tentou virar padre apesar do pai alertar que não daria certo: “Luisinho não ama o Jesus da doutrina, ama o Jesus da Revolução e da Madalena!”. Ao menos aprendeu latim, francês e italiano, gramática e filologia, oratória impecáveis, artes da memória.

Logo que abandonou o Seminário ingressou na Universidade, de cara a repressão na Passeata dos Bichos de 1966, mais passeatas em 1967 e principalmente 68 quando apanhou com os operários em Contagem, nova prisão. Veio o AI-5, na sexta-feira 13, em dezembro. Na sequência, em fevereiro de 1969, o “477” e dois recados dados a SanThyago: por ofício foi expulso da Faculdade pelo Decreto; na República quebraram tudo num dia sem ninguém. Entendeu ambos. Hora de partir e disse aos pais: “Voltarei para nosso sertão”.

Rememorava então da sua passagem pela Crateús de Dom Fragoso e Padre Alfredinho no início da década de 1970? Da Igreja Popular Libertadora daquela Diocese, do Padre torturado, doutro exilado, missas espionadas, palestras canceladas, vigilância constante, difamações e censura na região, das frentes de serviço, das cartilhas e alfabetizações conscientes, da fundação de células educativas dos sindicatos rurais e operários, do Ninho criado para “as vítimas da prostituição”, das lutas contra açudes roubados, secas e saques, das centenas de CEBs que floresceram na região dos Inhamuns.

Ou recordava era de nova migração? Ao saber dos conflitos de terra, em outros sertões de outro Bispo das Catacumbas, onde poderia incentivar novos núcleos de educação, Luís partiu para a cidade das pedras. Primeiros centros de evangelização, grupos escolares, apoiando senhorinhas abrindo espaços de alfabetização distritos afora, pelos sítios, garagens, onde desse. Até que o prefeito sondou se queria ser Secretário da Educação da cidade? “Sim!” E logo abriu escolas e grupos viajando a cavalo, a pé, bicicleta, de todo jeito, por todo canto, educou milhares, fez de leigas educadoras, de analfabetos leigos, todos guerreiros e guerreiras por seus destinos, mas faltava algo.

Osvaldo então pensou que teve a epifania definitiva sobre Luís SanThyago: ele lembrava mesmo era do final dos anos 1970 e início dos 80 para criar a Faculdade e garantir de vez a valorização do magistério, das paredes erguidas por mutirões populares, de como o povo do Sertão, pais, mães tios, padrinhos, madrinhas, vislumbraram que seus filhos virariam “doutores” para não sofrerem como eles.

Lembrava do encampamento da Faculdade pelo Estado para torná-la equipamento público vital, central no Sertão… Era isso: de novo diretor após tantos anos o velhinho de setenta poucos anos rememorava o começo da sua Faculdade.

Nada disso! Percebeu que era ele próprio que recriava a história do velho militante, a idealizava ali no calor da caminhada! Era ele, Osvaldo, envolto e entorpecido nas brumas do outrora, quem imaginava o passado, misturava, e até inventava, fatos e personagens, era o narrador sonhando com vidas e épocas que não conhecera, que refletia a vida de SanThyago à sua maneira.

Luís, por sua vez, seguia era olhando para o futuro, novamente… Osvaldo despertou com as palavras de ordem:

– “Nossa arma é a educação!”, “Sou estudante, não abro mão de Previdência e mais educação!”, “Verás com quantas fraquejadas se faz uma Revolução!”, “Educação Resiste!”

Centenas, talvez milhares, de manifestantes, principalmente estudantes, vários docentes, sindicalistas, toda uma gente surgida parecia do nada os seguiam. Osvaldo ia conferir essa estimativa voltando para o fim da enorme e miraculosa passeata que não saberia dizer o final apenas olhando para trás: faixas e cartazes e turmas dos Institutos, de IES Estaduais e Federais até particulares, o presidente do C.A Unificado até reconheceu alguns que no ano anterior estavam defendendo quem agora cortava os recursos para a Educação Nacional e que vaiaram ele e Luís em seu périplo durante o auge da disputa eleitoral.

Multidão na Matriz, SanThyago será o segundo a discursar logo após Rosa. Ela começa com o poema aprendido na evangelização na Capela dos Direitos Humanos, feita de taipa, na Serra da Barra do Vento em meados dos anos 1980:

– “Quem vai na frente/não vê caminho…”

*** ***

Edmilson Alves Maia Júnior nasceu em 1977, em Fortaleza (CE), onde morou até o início dos anos 2000. Foi professor substituto nos cursos de História da Uece e UFC. É professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará desde 2008, na cidade de Quixadá, na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), e doutor em História pela UFMG. Mestre e graduado em História pela Universidade Federal do Ceará, onde é professor do Programa de Pós-Graduação Profissional em Ensino de História. Coordena o Programa de Pós-Graduação em História e Letras da Feclesc. Tem crônicas e contos publicados em sites e livro físico.

Compartilhe o artigo:

ANÚNCIOS

Edit Template

Sobre

Fique por dentro do mundo financeiro das notícias e opiniões que rolam no Ceará, Nordeste e Brasil.

Contato

contato@portalinvestne.com.br

Portal InvestNE. Todos os direitos reservados © 2024 Criado por Agência Cientz