Ciro Gomes e o vexame de não dizer coisa com coisa (Ou “Ciro e o sincero ‘aí dento!’ que despeja na cara do eleitor”)

Por Roberto Maciel, jornalista:

Chega a ser constrangedor ver em debates o candidato bolsonarista Ciro Gomes (PSDB) pedindo votos para tentar ser, mais uma vez, inquilino do Palácio da Abolição, sede do Governo do Ceará.

Se é constrangedor para o público, para Ciro é um vexame. É ruinoso.

Há duas razões para tanto: 1) Tem pouquíssimas realizações para mostrar e, nas tentativas que faz, precisa recorrer ao nome do criador dele, Tasso Jereissati; 2) Faz tanto tempo que Ciro desapareceu da vida administrativa do Ceará – renunciou à gestão em 1994, há 32 anos, portanto – que muitos eleitores não têm lembranças ou nem sequer indícios da passagem dele pelo poder local.

É por isso, certamente, que sempre repete nos confrontos com o governador Elmano de Freitas (PT): “Não estou aqui para falar do passado…” A frase oscila entre a arrogância e a auto-humilhação. Ciro Gomes fez isso pelo menos duas vezes na TV Diário, quarta-feira passada.

Um exemplo: ao tentar enumerar o que “fez”, Ciro costuma mencionar o aeroporto Pinto Martins – “botei o projeto debaixo do braço com Tasso Jereissati e saímos por aí para buscar recursos”. É mais uma obra de ficção só contada pelas vozes da cabeça dele. O Pinto Martins foi integralmente articulado por Tasso e inaugurado em fevereiro de 1998, mais de três anos após Ciro ter largado o posto no qual o cearense o havia colocado. A Infraero e o governo federal, na gestão de Fernando Henrique Cardoso, participaram das empreitadas.

Como poderia dizer o Barão de Itararé, há nessa conversa mole de Ciro Gomes algo mais do que aviões de carreira.

Outro: em 1987, Tasso Jereissati lançou o Programa de Agentes Comunitários de Saúde, criado pelo então secretário da Saúde, Carlyle Lavor. Em 1991, o Ceará foi agraciado com o prêmio Maurice Pate, do Unicef, pelo trabalho contra a mortalidade infantil nas regiões mais carentes. 

Quem recebeu o reconhecimento do Fundo das Nações Unidas foi Ciro Gomes, meio que “entrando na história como Pilatos entrou no Credo”. Assim mesmo reivindica o feito para si.

*** ***

Lembre-se bem: Ciro não é para amadores. Sendo aliado ou não, admirador ou não, ninguém tem o direito de descuidar com o que ele fala.

Talvez, e pior de tudo, o que diga com mais sinceridade para o eleitor é o debochado “Aí dento!”

 

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