Por Ricardo Alcântara, escritor e publicitário:Em um Brasil que sempre dissolveu conflitos através de acordos entre elites, em que poucas vezes a ação direta da sociedade organizada obteve mudanças substantivas, a condescendência moral com abusos e deslizes quase parece uma virtude de refinado apuro e qualquer apelo à virtude vira coisa de idiota.
Daí, normal nossa notável capacidade de engolir ossos sem ferir a garganta, como nação que já fez do tráfico de escravos uma atividade produtiva que outorgava tilítulos e promovia condecoração faustosa a seus agentes e até hoje seus herdeiros não se julgam devedores de nenhuma reparação.
Em anos recentes, havia em curso um golpe de Estado. Planejava-se assassinar um presidente eleito, por exemplo. Estimulados pelo discurso fascista de seus líderes, alguns tiveram a brilhante ideia de explodir um caminhão pipa cheio de gasolina na porta do aeroporto da capital do país. Essa, foi por pouco. A senha seria um ato coletivo com aparências voluntaristas: depredar a sede dos poderes constituídos e provocar, pela via imperativa de uma GLO, uma intervenção militar – o golpe.
Agora, direciono a prosa para a sucessão estadual no Ceará, onde o candidato Ciro Gomes, uma liderança de tradição biográfica reformista, se lança à aventura de sair às ruas de braços dados com aqueles que estiveram comprometidos com toda aquela pajelança fascista e nunca pronunciaram uma só frase de, nem digo arrependimento, mas mera autocrítica.
Sobre essa aliança, Ciro tem se esforçado para impor uma narrativa de neutralidade, como se o apoio que recebe da extrema direita fosse uma mera contingência tática, sem que houvesse qualquer tipo de contrapartida. Como se uma legião de diabinhos estivessem em surto altruísta, compenetrados de um dever cívico capaz de superar constrangimentos recicláveis. Papo furado.
Seria essa uma conversa mole, se não fosse perigosa. A aliança entre o ressentimento e a desordem tem moeda de troca: Ciro recebe tempo de propaganda, recursos do fundo partidário e templos pentecostais de portas abertas com a compensação de fortalecer duas candidaturas ao senado de figuras que nunca fizeram questão de esconder devotada simpatia às ideias bolsonaristas, de subjugar o país a interesses imperialistas e planejar a ruptura do Estado democrático de direito.
É tudo tão simples: basta ver como essa escumalha escravocrata tem votado diariamente na Câmara Federal e no Senado da República. São pastores evangélicos que confessam orar pela morte de adversários e policiais que almejam condecorar amotinados que dispararam tiros contra o peito de um senador eleito. É gente que vota contra o direito de uma criança de doze anos, engravidada mediante estupro comprovado, ter acesso à compaixão de um aborto legal no serviço público de saúde. Poderia aqui citar outras dez aberrações medievais dos novos aliados de Ciro Gomes, mas seria leitura de baixa salubridade. Basta que se diga: seus mentores se encontram presos.
O que quero dizer, e acho que já disse, mas posso repetir em termos mais conclusivos é que Ciro Gomes e Tasso Jereissati – valiosas revelações políticas do movimento pela redemocratização do país – emprestam agora o prestígio de suas biografias para normalizar a barbárie e dar lugar à mesa a quem deseja nos fazer voltar a comer com as mãos.
A fotografia de Tasso e Ciro sorrindo ao lado de André Fernandes significa que “as forças do atraso”, que sempre denunciaram, os curvaram – eis o soldo espúrio de tanta amargura. Valeu a pena? Em mais quatro semanas, as urnas dirão.


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