Chico Passeata não foi inimigo de Ciro Gomes, mas Ciro Gomes é inimigo da memória

Por Roberto Maciel, jornalista:

Conheci o médico Francisco Monteiro na minha primeira dentição de jornalista – é assim que gosto de chamar aquele período longínquo. Nem sabia que o apelido dele era “Chico Passeata” e o da esposa era “Helena Concentração”, conferidos pelo movimento estudantil dos anos 1970 pela coragem e valentia com que, acadêmicos de Medicina, participavam de atos contra a ditadura militar. Ele se apresentou a mim como Francisco Monteiro, deixando pra lá o “doutor” costumeiro. Helena tem o belíssimo e poético sobrenome de Serra Azul.

Onde estava Ciro Gomes naqueles anos de extrema violência com que os governos tratavam a Democracia? Do lado do poder.

Chico e Helena mais de uma vez sentaram diante de mim na agitada redação do jornal O Povo, por volta de 1988, e, falando em nome dos médicos cearenses, relataram as lutas da categoria naquele momento. Disseram o quanto era importante mobilizar os companheiros e a sociedade inteira. Explicaram a quantas estavam as articulações da classe e a necessidade de se dar resposta política com unidade e força às dificuldades que surgiam.

Onde estava Ciro Gomes naquela época em que Tasso Jereissati tratava com extrema repressão os direitos dos trabalhadores da saúde? Do lado do poder.

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Voltemos a Chico Monteiro, pois.

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O médico sanitarista foi acusado pelo advogado Ciro Gomes (PSDB) de ter inventado uma frase tão absurda quanto desrespeitosa e a atribuído a ele: “médico é como sal, branco, barato e se encontra em qualquer esquina”. Que coisa: um homem que abraçou a causa de salvar vidas e dar esperanças atacado por outro que diz ter abraçado a de cuidar do direito e da verdade.

E foi um ataque covarde – escrevo isso sem achar que a palavra tenha entendimento além do que os que estão nos dicionários. Chico Monteiro morreu em 2011. Não tem como se defender, embora saiba-se que o faria com competência, respeito, coragem e valentia cidadãs.

Mas deixou amigos e admiradores (entre esses, imagina-se, os médicos Roberto Cláudio e José Sarto, ambos ex-prefeitos de Fortaleza, reconhecidos admiradores de Chico e parceiros de Ciro Gomes na atual empreitada eleitoral). Também deixou uma história rica, inteligente e ética.

Pois os amigos e admiradores de Chico Passeata publicaram nas redes sociais uma nota doída e indignada com a vilania de Ciro Gomes: “Toda a sua vida pública e profissional foi pautada na defesa intransigente do SUS e na valorização das condições de trabalho dos profissionais da saúde. Atribuir a autoria dessa frase a Chico Monteiro contraria tudo o que ele defendeu ao longo da vida”, escreveu-se em referência ao médico.

“Chico (…) nunca disse nem inventou tal frase. Sua trajetória é de compromisso com a saúde pública, com o SUS e com a dignidade dos trabalhadores. Não aceitamos que sua memória seja usada para justificar falas que contrariam tudo o que ele defendeu”.

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O episódio da agressão a um homem morto, que deverá, com justiça, ser incluído entre os mais repugnantes da história eleitoral do Ceará, tem pelo menos uma expectativa que agora se escancara: a de que a nitidez da arrogância, da violência política, da incapacidade de alguns para assumir o que se falou e se impôs, da irresponsabilidade e do desprezo com a memória assume, sempre, funções constrangedoras mas reveladoras.

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