Sábado é dia de Samba, por Ronaldo Caminha: os bares e as artes plurais da amizade, da música e da Democracia

Por Ronaldo Caminha, economista, músico e estudioso da arte e da cultura brasileiras – o autor escreve sempre aos sábados sobre música, artistas e histórias:

O bar sempre exerceu papel importante na música brasileira, como elemento de aglutinação da classe. Compositores, cantores e músicos historicamente adotavam um bar não só para beber mas para trocar ideias e mostrar canções. Mas por que um bar e não a casa de amigos, uma biblioteca, uma praça? Não se sabe ao certo, mas me arrisco num palpite: a atividade artística, não só a música, exige um ambiente livre, democrático, onde se permita as misturas de tendências, sem censuras e regras que venham a inibir experiências. E o bar é a combinação de tudo isso; uma espécie de laboratório.

O Café Nice, bar no centro do Rio de Janeiro, inaugurado em 1928, foi o mais famoso e contribuiu significativamente para a evolução da nossa música que, àquela época, começava a assumir sua identidade, libertando-se das influências da cultura europeia, ainda muito presentes. Circularam por lá os grandes nomes da Época de Ouro do Rádio – Francisco Alves, Mário Reis, Ary Barroso, Noel Rosa, Lamartine Babo, João de Barro, Heitor dos Prazeres, Cartola, Sílvio Caldas, Orlando Silva, Aracy de Almeida, Linda Batista, Dalva de Oliveira e Herivelto Martins.

O Zicartola, outro local muito importante também, foi uma aventura do fundador da Mangueira, entre 1963 e 1965; de peito aberto, coração puro e um carisma transbordante no meio musical, com sua companheira Zica, abriram os braços para receber uma constelação de amigos. Ocuparam suas mesas Zé Keti, Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Pixinguinha, Hermínio Belo de Carvalho, Paulinho da Viola, Carlos Lira, Roberto Menescal, Chico Buarque, Tom Jobim, os cantores Ciro Monteiro, Nara Leão, Clementina de Jesus, os poetas e escritores Vinicius de Moraes, Rubem Braga, Stanislaw Ponte Preta e Antônio Maria.

A ditadura começava a mostrar sua “carranca”, fazendo o sentimento de nacionalismo também acordar, no ambiente musical brasileiro, e o Zicartola foi o palco ideal para a troca de figurinhas entre os compositores do samba tradicional, os jovens iniciantes da MPB e os bossanovistas da Zona Sul, contestando os rumos que o País tomara com Revolução de 64, e a interferência da censura nas manifestações artísticas. Muita coisa interessante aconteceu enquanto durou; eram comuns shows com Paulinho da Viola, acompanhando ao violão Cartola, Elton Medeiros e Clementina de Jesus, ou a Nara Leão, de pernas cruzadas, cantando e se acompanhando ao violão.

Mas, a benevolência e a falta de talento empresarial do seu dono que, invariavelmente, largava o controle das comandas e subia ao palco para dar generosas canjas, desaguaram numa insolvência inevitável; contas que não fechavam, cabides repletos de vales, encerraram precocemente o ímpeto empreendedor do casal Verde-Rosa.

Tinha também o botequim de periferia, uma variante do bar, com características bem peculiares; por ser pequeno, como o próprio nome sugere, é simples, aconchegante e possui naturalmente uma vocação para o protesto, um lugar onde se pode falar mal do governo, da sociedade, das injustiças, com a certeza de uma cumplicidade. Enfim, é o ambiente mais democrático, não tem sala vip nem distinção social ou racial.

Algumas canções parecem que foram compostas ali, de repente, contando situações com muita naturalidade.

“Seu garçom faça um favor de me trazer depressa,
Uma boa média que não seja requentada,
Um pão bem quente com manteiga à beça,
Um guardanapo e um copo d’água bem gelada”.

Noel Rosa e Vadico dão a ideia de que a composição “Conversa de Botequim”, foi realizada no momento de uma situação vivida num botequim. A canção evolui entremeada de detalhes típicos para um desfecho muito bem humorado, que era também uma característica marcante do Poeta da Vila, autor da letra.

Em Fortaleza, destacou-se o Bar e Restaurante o Anísio, situado na Avenida Beira Mar que, em meados da década de 1960, foi o ancoradouro dos artistas cearenses – compositores, músicos, cantores, poetas e escritores. Frequentavam com muita regularidade os artistas Rodger Rogério, Teti, Ednardo, Belchior, Fagner, Wilson Cirino, Petrúcio Maia, Fausto Nilo, Augusto Pontes, Brandão e Amelinha. Nascia ali o movimento musical conhecido como “Pessoal do Ceará”. Arrumaram as malas e seguiram, “descendo ladeiras, varando cancelas, abrindo porteiras”, para o eixo Rio-São Paulo, para mostrar sua arte. Muita música boa surgiu nesses caminhos, grandes parcerias se formaram e o Ceará se lançava com muita qualidade no cenário musical brasileiro.

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Existiu também em Fortaleza um outro tipo muito interessante, em que os frequentadores eram músicos e cantores amadores. Formavam a roda puxada por um violão, depois iam aparecendo outros instrumentos – cavaquinho, surdo e pandeiro – tudo muito espontâneo, e o samba fluía naturalmente.

Já tivemos vários desses em épocas distintas; começaram, cresceram em popularidade, atingiram um apogeu e depois, alguns desapareceram – Bar Esquina do Valmir (Aldeota), Suvaco (Aldeota), Serve Bem (Aldeota), Embaixada da Cachaça (Aldeota), Bar do Biluca (Joaquim Távora) Bar do Chaguinha (Benfica), Buraco do Reitor (Benfica), Padaria Espiritual (Centro), Estoril, Cais Bar, Pilão da Madrugada e o Luiz da Varjota. Todos, ou a maioria, com uma forte pré-disposição musical, marcaram épocas na Cidade.

Hoje vejo essa tradição se dissipando e o ponto de encontro, antes tão necessário no bar, agora acontece nas redes sociais – whatzap, instagram, facebook. A presença física já não é importante, e tudo acontece com muita rapidez, à distância. Faz-se uma vídeo-chamada, com uma canção que se quer mostrar, e o amigo lá na Groelândia já faz a sua observação no ato, dá palpite na melodia e na letra e, às vezes até rola uma parceria, há milhares de quilômetros.

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Não podemos reclamar. Afinal, a tecnologia existe para agilizar e nos facilitar as ações, mas, admitamos, perdemos em calor humano, o aperto de mão e o abraço na despedida.

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