Ciro quer fazer com a Cagece o que Tasso fez com a Coelce? O cearense aguentaria outra versão da Enel?

Por Roberto Maciel, jornalista:

O ex-governador e ex-ministro Ciro Gomes (PSDB), agora obcecado pelo capricho de novamente mandar no Ceará, voltou a atacar instituições e trabalhadores sem apresentar prova nenhuma do que afirma. Isso é reincidência.

Disse ele: “A Cagece não presta, porque a Cagece virou um antro de roubalheira, de corrupção generalizada. Aumentos escorchantes de tarifa e roubalheira do primeiro ao quinto. É tudo ladrão, mas vai tudim se explicar”.

Parece esquisita a ideia de sentenciar uma empresa pública como algo que “não presta”. Depois de ter agredido a todos os que fazem segmentos importantes da gestão estadual, o extremista Ciro (que um dia posou de progressista, avançado) mira o rancor agora numa empresa que ostenta resultados positivos e viabiliza para os usuários ganhos técnicos e operacionais: a Companhia de Água e Esgoto do Ceará.

A aquisição de modernas metodologias internacionais e o desenvolvimento de meios nos próprios laboratórios são exemplos de aprimoramentos, mas isso não interessa ao valentão Ciro Gomes. Ele demonstra enxergar a Cagece apenas como ativo financeiro, o que é um erro, e nunca como como ativo social. Empresa que escapou da sanha privatista de Tasso Jereissati, Fernando Henrique Cardoso, Jair Bolsonaro e Paulo Guedes, a companhia faz com que direitos fundamentais do cidadão sejam cumpridos pelo poder público – tanto a instituição quanto os trabalhadores que a compõem.

Soa muito estranha, então, essa virulência de Ciro Gomes.

A quem ele acha que está atendendo quando fuzila desse jeito o interesse popular? O consumidor ou as grandes corporações que olham avidamente para o serviço que a Cagece presta?

O ex-governador e ex-senador Tasso Jereissati, criador político de Ciro Gomes, não escapou do jorro de agressões do pupilo e dos exemplos que ele usa. “Tem cabimento uma empresa fuleragem como a Enel botar o nome de um cidadão, de uma dona-de-casa, no SPC? Vou botar essa Enel para correr do Ceará com toda a força que eu tiver”. O ataque acerta o frágil coração de Tasso, dotado de stents e pontes de safena e mamárias. Foi o veterano empresário-político quem escancarou as portas do Estado, privatizou a antiga Coelce e estendeu um tapete vermelho para a Enel entrar. E ela entrou.

Agora, Ciro aponta no peito da Cagece.

Tasso Jereissati vendeu a Coelce para chilenos, espanhóis e portugueses – eram as nacionalidades de empresas integradas num consórcio em 1998. Essa soma deu na venda da Enel. O Ceará teria recebido R$ 987 milhões. Foi barato. Para se calcular o tantão da boca-livre que Tasso entregou, observe-se que anualmente o Estado vem pagando cerca de R$ 1,5 bilhão à Enel pela energia que usa. E não se espante: de 1998, quando a Coelce foi vendida, para cá Ciro nunca apareceu para questionar esse negócio. Para ele está certo, talkei?

Tasso: inventor de Ciro também inventou de vender a Coelce; deu no que deu

Quanto dessa montanha de dinheiro foi aplicado em melhorias de serviços para o cidadão cearense? Que nada! Nenhum vintém dos R$ 987 milhões foi gasto para construir um hospital, uma escola ou uma estrada. A verba foi, inteirinha, enfiada no caixa do Estado para tapar o buraco previdenciário do período e outras despesas. Ciro Gomes, o valentão, calado estava e calado ficou. Convenientemente, claro.

A Enel tem hoje encrencas agudas com o consumidor. Em 2020, precisou devolver aos usuários mais de R$ 18,3 bilhões por falhas cometidas em serviços e erros em contas. A tal da eficiência, que Tasso e aliados arguiam em confronto com o serviço público da Coelce, virou um embolado de fios. Foi o Estado do Ceará que encaminhou essa ação à Justiça. O governador na época era Camilo Santana (PT).

A pergunta é: ao “botar a Enel para correr” Ciro vai remendar o que Tasso fez?

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