Do site Revista Fórum, com texto de Julinho Bittencourt:

O deputado estadual Gustavo Victorino (Republicanos) afirmou, em entrevista à TV da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, que a farmacêutica Maria da Penha “nunca tomou um tapa” do ex-companheiro. A declaração gerou forte repercussão negativa, uma vez que a vítima, que dá nome à Lei Maria da Penha, sofreu dupla tentativa de feminicídio em 1983.
Na entrevista, concedida no mês em que o Rio Grande do Sul já contabiliza o 16º feminicídio do ano, Victorino comentava os índices de violência doméstica no Estado. Ao abordar o tema, afirmou que o Judiciário precisaria diferenciar casos em que há “componente de discussão material”, sugerindo que alguns boletins de ocorrência seriam registrados em meio a disputas por partilha de bens.
“A lei veio num momento ótimo, mas o nome da lei é uma farsa. Porque essa dona Maria da Penha nunca tomou um tapa do marido dela. Nunca sofreu violência física nenhuma do marido dela. Ela disse isso”, declarou o parlamentar.
Histórico do caso
De acordo com informações do Instituto Maria da Penha, a farmacêutica ficou paraplégica após levar um tiro nas costas dentro de casa. O autor do disparo, o colombiano Marco Antonio Heredia Viveros, alegou inicialmente à polícia que o caso se tratava de uma tentativa de assalto, versão posteriormente desmentida por perícia técnica.
Quatro meses após a primeira tentativa de homicídio, quando Maria da Penha retornou para casa depois de cirurgias e internações, ela foi mantida em cárcere privado por 15 dias e sofreu nova tentativa de assassinato — desta vez por eletrocussão durante o banho.
Apesar disso, ao comentar o caso, Victorino afirmou que a ativista teria ficado “tetraplégica por um assalto que sofreram”, retomando a versão apresentada pelo agressor na época.
Retratação e fake news
Após a repercussão negativa, o deputado publicou um vídeo nas redes sociais reconhecendo que se baseou em informações falsas. Ele afirmou ter sido enganado por uma fake news que circula na internet há pelo menos três anos e já foi desmentida por veículos de imprensa.
“A fake news que circula engana fácil”, disse o parlamentar, mencionando ainda entrevista concedida por Marco Antonio à jornalista Leda Nagle, na qual ele afirma ter solicitado revisão processual.
O caso também foi alvo de medidas judiciais. Em 2025, a Advocacia-Geral da União (AGU) ajuizou ação civil pública contra a Brasil Paralelo por divulgar vídeo com conteúdo considerado desinformativo sobre o processo que resultou na condenação de Marco Antonio.
No vídeo de retratação, Victorino também informou ter protocolado um projeto de lei para tipificar e combater a chamada violência vicária — quando o agressor atinge a mulher por meio de violência contra os filhos.
A declaração do deputado reacendeu o debate sobre desinformação e violência de gênero, especialmente em um contexto de alta nos índices de feminicídio no Estado.

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