A Resenha da Tuty: “Mulher extraordinária”

Por Tuty Osório

Não me lembro exatamente quando esse livro me encontrou. Comprei-o muitas vezes para presentear, nas diferentes cidades por onde andava. Fortaleza, São Paulo, Brasília, Cuiabá, Juazeiro do Norte. O primeiro foi para a minha mãe. Certeza. Minha mãe gosta de biografias, na verdade, são as boas histórias que a encantam. Foi dela a dica que Fernanda Montenegro lançava a sua, no mesmo ano da Vida Invisível, o filme belíssimo do Karin Ainouz. Ela fez a protagonista mais velha, a mulher da década de 50 após atravessar a opressão. Quando veio receber a homenagem no CINE Teatro São Luiz era um pontinho no palco, calças vermelhas e túnica florida em tons de lilás. Maravilhosa.

A história de Fernanda não tem nada demais. Uma moça da periferia carioca que segue a carreira de atriz, em tempos de nenhum respeito, porém, muita admiração. Com 96 anos ela afirma que ainda o faz pelo prato de comida do dia e a imagem é fascinante. A arte como um ofício de sobrevivência, como aquilo que se faz porque é o que se sabe fazer. Faz-se com esmero, com brilho, com dedicação de ferreiro. Quero muito escrever, assim, como uma atividade igual às outras. Sem extravagâncias, vaidades, pedantismos. Como não tenho o talento para esses temperos, só escrevendo, fico meio deslocada, muitas vezes.

O que vale na Contação da vida da chamada Fernandona, sendo que a filha premiada internacionalmente é conhecida como a Fernandinha, é o jeito de contar. Ela desliza por décadas e cenários, sempre ancorada na referência dos avós, dos pais, dos tios e tias. Gente que ela chama de OS MEUS IMIGRANTES e nós, leitores, podemos vê-los, vivíssimos, saindo das páginas, com e sem chapéu, sentando-se conosco à mesa, cortando o pão sagrado com as mãos. Os sardos e os portugueses que atravessaram o mar e nos encantaram com essa brasileira, a idosa que jamais envelhece, a sabedoria despojada, fresca como uma alface acabada de colher.

Também eu atravessei o mar junto com meus pais e irmãos. Lendo Fernanda, fico pensando se serei, um dia, a imigrante de alguém…Como terei orgulho que minha descendência se aproprie da minha aventura e faça da minha passagem um legado. Eu carrego docemente os meus lembrados, com orgulho e alegria. Serei guardada na memória dos meus e também me portarão por cerimônias e cotidianos? Dirão em tom grave, emocionado, derramado em doçura, que tal coisa aprenderam com a sua imigrante? Aprenderão comigo que a sobrevivência pode ter seus segredos anotados num breviário* e que a coruja é, sim, amiga do elefante**?

***Breviário da Sobrevivência e A coruja e o elefante são dois livros que escrevo e ilustro para os meus sobrinhos netos, Maya, Samuel e Beatriz. Serão concluídos em 2026.

Prólogo Ato EpílogoINFORMAÇÕES:
PRÓLOGO, ATO, EPÍLOGO, por Fernanda Montenegro com a colaboração de Marta Góes, Editora Companhia das Letras, 2019 – Nas livrarias físicas e virtuais.

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Tuty Osório é jornalista, especialista em pesquisa qualitativa, e escritora.

São de sua lavra QUANDO FEVEREIRO CHEGOU (contos de 2022); SÔNIA VALÉRIA, A CABULOSA (quadrinhos com desenhos de Manu Coelho de 2023) e MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA, dez crônicas, um conto e um ponto (crônicas e contos, também de 2023).

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SÔNIA VALÉRIA, A CABULOSA
QUANDO FEVEREIRO CHEGOU
MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA

Em dezembro de 2024 lançou AS CRÔNICAS DA TUTY em edição impressa, com publicadas, inéditas, textos críticos e haicais.

 

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