Por Ana Márcia Diógenes, jornalista, professora e escritora:
Adoro ouvir diálogos soltos, pedaços de conversa de quem está usando fone de ouvido e esquece que os passantes escutam. O fato de não ouvir tudo e nem saber o contexto deixa margem para que se possa pensar o que quiser.
Se é bate-papo entre amigos, colegas de trabalho, ficantes… E assim sigo cronicando os fragmentos cotidianos.
Ouvi um diálogo interessante, na recepção de uma clínica, que é um daqueles pedaços de prosa que trazem reflexão:
– Quando receber os exames a senhora avisa para eu marcar o retorno.
– Tá certo, até a vinda.
Me chamou atenção a paciente não usar “até a volta”. Na mesma hora fiz uma busca na internet. A expressão é utilizada no contexto religioso, para que se aguarde, firme e pacientemente, pelo retorno de Jesus. Não encontrei outro uso nas pesquisas que fiz.
Não sei nada sobre a paciente, sequer o nome. Se é cristã ou ateia, menos ainda. Desconhecer este entorno me abre possibilidades infinitas, que atraem para o desconhecido.
Será a pessoa extremamente positiva, que coloca a palavra vinda como algo que está na esfera do ser bem-vinda?
Será que tem TOC e acha que a expressão “até a volta” pode dar azar por antecipar uma situação sobre a qual não tem controle?
Mil conjecturas podem ser feitas e vou confessar a que mais me tocou: acho que essa mulher gosta de movimentos de chegança, aqueles que a gente vem com vontade, de coração aberto aos encontros. Para ela, a volta pode ser obrigação, enquanto a vinda seria decisão.
E você, leitor-leitora, o que acha que representa?


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