Artigo: “A maldição do petróleo não é só do petróleo: é do sistema”

Por Sabrina Fernandes, colunista do site Intercept Brasil:

Comecei a estudar política energética lá na graduação, quase duas décadas atrás, e não parei mais. Aprendi que o simplismo só atrapalha a entender o papel da energia no desenvolvimento, nas guerras e na relação com a natureza.

Embora os combustíveis fósseis sejam os grandes vilões do aquecimento global, eles ainda são tão centrais na economia que fechar a torneira de uma vez seria calamitoso.

Usinas hidrelétricas são frequentemente lidas como uma alternativa limpa que isentaria o Brasil de se preocupar radicalmente com a transição energética. No entanto, essas usinas podem emitir carbono e ser verdadeiras fábricas de metano, a depender do contexto.

Ainda assim, quando criticamos uma usina hidrelétrica de Belo Monte, não quer dizer que a gente queira um monte de termelétrica no lugar. 

Quando falamos que o Brasil precisa investir em segurança energética, não é pra justificar o carvão nacional até 2040, muito menos expandir investimentos energéticos para atender às demandas das big techs. 

O planeta Terra tem um metabolismo que é vivo que interage com a parte não-orgânica do planeta também.

Somos água, minérios e ar, e interagimos com a temperatura e o clima não somente para sobreviver, mas também para produzir e alterar o mundo ao nosso redor. Por conta disso, tudo que fazemos tem impacto. 

A produção de energia eólica, por exemplo, tem impacto via extração e o processo industrial de fabricação de turbinas. Esse impacto pode ser minimizado com ganhos em eficiência tecnológica, pesquisa sobre os materiais utilizados e otimização logística.

Também existe impacto ecológico e social quando as turbinas são instaladas em larga escala – praticamente em modo latifundiário –, alterando a ocupação do solo, perturbando a saúde e a paz de comunidades ao redor, e afetando ecossistemas biodiversos – na terra e no mar. A solução passa por zonas de exclusão ou de comunidades energéticas.

Mas, no geral, para minimizar impactos, é preciso querer fazê-lo. É preciso avaliar se aquele investimento é necessário mesmo, se deve ser naquela quantidade, daquele tamanho, com aqueles materiais e com que arranjo socioeconômico.

Uma coisa é instalar micro-parques eólicos, conectados, porém com distribuição também descentralizada, para atender à demanda energética de bairros, escolas, universidades e hospitais.

Outra, bem diferente, é subsidiar parques eólicos privados que se apropriam de grandes terras para vender energia renovável para data centers de uma rede social ou ajudar a “limpar a barra” da mineração de aço que quer aparentar ser mais “verde”. 

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