Por Cesar Cotait Kara José, gestor nas áreas de consultoria e desenvolvimento de softwares:
Existe uma cena comum entre quem tenta criar o hábito de se exercitar: a pessoa decide que vai cuidar da saúde compra roupa nova, baixa aplicativo, organiza a agenda, pesquisa treino — e faz quase tudo, menos começar. Na carreira, o padrão se repete: planeja, analisa, ajusta, discute e adia. No fim, evita justamente o que mais precisa enfrentar. Essa é a pergunta central: o que você está evitando hoje? Não o que você faz bem, não o que domina, mas aquilo que adia, contorna ou empurra para depois.
Esse não é apenas um tema esportivo. É um tema humano. Porque, no esporte, na atividade física ou na carreira, muitas vezes não é o que você faz bem que define seu limite, mas o que você evita. Nosso cérebro tem uma função muito clara: proteger. Ele busca segurança, previsibilidade e controle, reduzindo risco, exposição e incerteza. O problema é que a carreira não recompensa conforto por muito tempo. Ela recompensa adaptação, expansão e movimento real. Crescer quase sempre cobra um preço: o da dúvida, o de não se sentir pronto e o de agir sem garantias.
No esporte, isso se torna especialmente visível nas subidas. E não é preciso correr para compreender a metáfora. Todos, em algum momento, vivem a sua subida: uma mudança de cargo, uma crise pessoal, uma decisão difícil, uma fase em que tudo parece mais pesado. A subida é o trecho em que a respiração aperta, o ritmo muda, a margem de erro parece menor e a vontade de recuar aparece. No plano, muita gente vai bem. Mas é na subida que a verdade aparece. É ali que alguns quebram. A diferença raramente é construída no conforto; ela se revela quando o desconforto começa. Mas há uma nuance importante: nem toda subida deve ser atacada com intensidade máxima. Maturidade nem sempre é acelerar; muitas vezes, é dosar, entender o terreno e escolher com lucidez onde vale colocar energia. Na carreira, isso é decisivo. Por isso, a pergunta mais útil não é simplesmente “isso é difícil?”, mas “isso me leva para o próximo nível?”.
Há também uma armadilha sofisticada que acompanha muitas trajetórias profissionais: o conforto disfarçado de disciplina. No esporte e na atividade física, isso aparece quando alguém faz sempre a mesma coisa, no mesmo ritmo e com o mesmo esforço. Em muitos casos, porém, não se trata de consistência, mas de conforto bem-organizado. No ambiente profissional, o padrão é semelhante. A pessoa repete os mesmos processos, usa os mesmos argumentos, circula sempre nas mesmas zonas de domínio e evita qualquer movimento que a exponha de verdade a um novo nível de exigência. Como está ocupada, sente que está avançando. Mas, muitas vezes, está apenas se movimentando dentro do conhecido. Parece responsabilidade, produtividade, disciplina e comprometimento. No fundo, porém, continua sendo proteção. A maioria das pessoas muda apenas quando é obrigada. Os melhores mudam antes.
Outro obstáculo socialmente valorizado é o perfeccionismo. Ele costuma parecer qualidade, padrão alto, excelência e profissionalismo. Mas, em muitos casos, não passa de medo bem-vestido. A pessoa não entrega porque ainda “não está pronta”, não decide porque “faltam dados” e não se expõe porque “ainda dá para melhorar mais um pouco”. Enquanto isso, o tempo passa, a oportunidade passa, o contexto muda — e a hesitação cobra seu preço. Muitas carreiras não travam por falta de competência, mas por excesso de hesitação. E existe ainda um erro menos discutido, embora igualmente relevante: insistir demais também pode ser um problema. Há momentos em que continuar é força; em outros, é apego, orgulho ou simples medo de recalcular a rota. Em determinados momentos, a pergunta certa deixa de ser “preciso insistir mais?” e passa a ser “estou insistindo por estratégia ou por orgulho?”.
Essa reflexão me remete a um episódio que relato no livro Atleta Corporativo. Durante um período, eu evitava o agachamento livre. Não porque não conhecesse o exercício ou não soubesse executá-lo, mas porque ele expunha com clareza minhas limitações de equilíbrio, força, controle e estabilidade. Era desconfortável. Por isso, eu substituía: recorria a máquinas, fazia outras variações e mantinha uma rotina que, vista de fora, parecia disciplinada e consistente. Mas não era. Eu estava evitando justamente o que mais poderia me desenvolver. Foi apenas quando voltei ao básico — desconfortável, instável e exigente — que o progresso reapareceu. Essa lógica vai muito além do treino. Todo mundo tem o seu “agachamento livre”: aquela situação que expõe uma limitação real. Pode ser a conversa difícil que você adia, o feedback que precisa dar, a decisão que exige coragem, a responsabilidade que ainda não sente dominar completamente, a atividade física que sabe que precisa começar ou a mudança que já entendeu que precisa fazer.
Outro aprendizado importante que o esporte oferece diz respeito à relação entre carga, recuperação e sustentabilidade. Fala-se muito sobre intensidade, mas pouco sobre recuperação. Ninguém evolui apenas porque faz mais força; evolui porque treina, recupera e ajusta. Sem recuperação, não há adaptação. Sem adaptação, não há evolução. Na carreira, o erro costuma ser o mesmo. Muita gente confunde exaustão com comprometimento, agenda lotada com relevância, disponibilidade constante com liderança e trabalho sem pausa com alta performance. Mas operar no limite todos os dias não é alta performance. É desgaste acumulado. Performance sustentável exige intensidade, pausa e ajuste. Sem intensidade, não há crescimento. Sem pausa, não há sustentação. Sem ajuste, repete-se o erro. Uma carreira longa não se constrói apenas na aceleração, mas também na lucidez, na recuperação e na capacidade de ajustar a rota.
Por fim, existe uma distinção que o mercado sempre acaba impondo: a diferença entre performance e aparência de performance. Na academia, isso aparece de forma clara. Há quem esteja mais preocupado em se ver no espelho do que com a execução do movimento, mais atento à imagem que projeta do que ao resultado que constrói. A aparência responde rápido. A performance real, não. Ela exige técnica, consistência, correção e tempo. No ambiente profissional, a lógica é semelhante. Muita coisa produz percepção imediata: agenda cheia, discurso forte, velocidade, presença constante, sensação de urgência. Muita gente constrói uma aparência de performance: parece estratégica, produtiva, indispensável, central. Durante algum tempo, isso impressiona. Mas o mercado, mais cedo ou mais tarde, separa aparência de substância. No longo prazo, não é o que parece forte que permanece, mas o que gera valor real.
É por isso que vale voltar à pergunta inicial: o que você está evitando hoje? Onde você está se protegendo demais? Onde está chamando de prudência aquilo que talvez seja medo? Onde está insistindo além do necessário? Onde está ocupado, mas não está evoluindo? Onde está trocando crescimento real por movimento confortável? Porque é exatamente ali que costuma estar o próximo nível — não no que você já domina, não no que já virou rotina, nem no que oferece segurança, mas naquele ponto que você continua evitando. No esporte, na atividade física, na carreira, na liderança e na vida, a subida nem sempre desaparece. Mas a forma como você a enfrenta define quem você se torna. E o preço da evasão não é neutro: ele aparece na estagnação, na frustração e na distância entre o potencial que você tem e a performance que realmente entrega. No fim, o que você evita não fica parado. Fica definindo o seu limite.

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