Por Sabrina Fernandes, colunista do site The Intercept:
Como boa goiana que sou, vejo Goiás em vários outros lugares. Às vezes vejo Goiás de um jeito bom e carinhoso, quando caminho por Valparaíso no Chile e lembro da nossa Valparaíso goiana e do gostinho da nossa pamonha que não é a mesma coisa que uma pastelera de choclo, mas eu trato como se fossem parentes.
No Peru tem muita comida boa com milho também e quando eu morei no México tive a oportunidade de comer milhos que nem conhecia. Comi também um risoto inesquecível de huitlacoche, que é um fungo do milho que o agro brasileiro trata como doença, e no México é iguaria. Por isso, quando eu ando pela América Latina, eu vejo um pouquinho da minha terra em cada país; infelizmente, na parte ruim também.
O agronegócio também se nota pela região. O bioma mais desmatado no Brasil é o meu Cerrado e, embora haja queda recente na taxa de desmatamento, não tem sido suficiente.
Já pararam pra pensar que quando se desmata radicalmente, vai sobrando cada vez menos para desmatar? E assim, a taxa de desmatamento cai não necessariamente porque resolvemos preservar, mas porque não há muito de sobra para destruir? Nas regiões onde o agro já domina vemos muito disso. Por isso não adianta olharmos apenas para as taxas anuais, já que a área desmatada total também conta.
É por isso que recentemente vi bastante Goiás enquanto andava pelo Uruguai, mesmo se tratando de biomas diferentes. As monoculturas de árvores (principalmente pinus e eucaliptos) dominam 7% do território uruguaio e são usadas até para créditos de carbono fajutos hoje em dia.
O pampa sul-americano perdeu 16,3% de vegetação nativa nos primeiros vinte anos do século e já que a vegetação campestre favorece atividades como a pecuária, a produção de carne avança junto com a produção de soja, que já fez do Uruguai um dos maiores exportadores do cultivo no planeta.
A integração dos nossos biomas se mistura com a nossa história de passado colonial, com o legado do colonialismo que persiste até hoje, com a concentração de renda, com a desigualdade e, portanto, também com os desafios que enfrentamos conjuntamente.
Ora somos mão de obra barata pro resto do mundo, ora somos um grande celeiro e açougue que deve abastecer uma indústria de alimentos global baseada em desperdício, monotonia alimentar, e uma lógica onde maior quantidade não significa menos fome nem qualidade nutritiva.
Esse olhar é muito importante porque o brasileiro nessa imensidão de país e falando português muitas vezes não se identifica com os seus vizinhos. Salvo quem mora em região de fronteira ou está em territórios de maior fluxo migratório, é muito fácil cair no engano de que latinos são os outros.
Mas, felizmente, tenho a impressão de que nossa integração cultural está aumentando, e viajar na região está se tornando mais atrativo para muita gente do que ir para o Norte Global.
É interessante ver o mundo mais longe de nós, mas ver o que está pertinho conta muito também. Permite encontrar caminhos comuns e desenvolver estratégias conjuntas também.
É dessa forma que sentimos a dor dos incêndios na Patagônia argentina e chilena como sentimos quando queima a Amazônia brasileira, boliviana ou colombiana. É também dessa forma que torcemos para que vizinhos se livrem da sua extrema direita e que a nossa não alcance mais poder.
Ainda, é assim que sentimos orgulho quando descobrimos que apesar de um passado cruel e explorador, as raízes comuns da América Latina também são de música, de festa, de poesia e comida boa.
Por isso que mesmo em um país em que apenas uma minoria fala espanhol (como primeira ou segunda língua), há brasileiros que se encantaram com a filosofia de Pepe Mujica, com as construções dos zapatistas, com as letras e ritmos do último álbum do Bad Bunny, e com a persistência da luta cubana.
Que difícil é ser latino, mas que lindo também.


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