Todos os anos, milhões de brasileiros entregam sua declaração de Imposto de Renda sem saber que podem ajudar a salvar vidas — sem gastar absolutamente nada a mais por isso.
A legislação brasileira permite, desde 1990, que pessoas físicas e jurídicas destinem parte do imposto devido para projetos sociais, especialmente voltados à proteção de crianças e adolescentes. Esse recurso não sai do bolso do contribuinte: ele simplesmente deixa de ir para o Tesouro e passa a financiar iniciativas que impactam diretamente a sociedade.
Mesmo assim, esse mecanismo ainda é pouco conhecido.
Segundo dados da Receita Federal, o potencial de destinação via Imposto de Renda no Brasil chegou a R$ 14,59 bilhões em 2025. No entanto, apenas R$ 413,9 milhões foram efetivamente destinados, o que representa apenas 2,84% do potencial total.
Ou seja: mais de R$ 14 bilhões deixam de chegar todos os anos a projetos sociais e instituições que trabalham diretamente com saúde, proteção e desenvolvimento infantil.
Entre as instituições que dependem desse tipo de mobilização está o Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba — considerado o melhor hospital exclusivamente pediátrico da América Latina e referência internacional em medicina infantil, considerado o melhor do continente pela Newsweek.
Pelo quinto ano consecutivo, o hospital foi incluído no ranking mundial dos melhores hospitais pediátricos elaborado pela revista americana Newsweek, em parceria com a consultoria global Statista. Filantrópico, o hospital atende crianças e adolescentes de todo o Brasil. Mais de 70% dos atendimentos são realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Somente em 2025, a instituição registrou:
• 258.554 atendimentos ambulatoriais
• 20.534 cirurgias
• 21.637 internações
• mais de 1 milhão de exames
• 308 transplantes, incluindo coração, rim, fígado e medula óssea
Ao todo, o hospital possui 369 leitos, sendo 76 de UTI e 10 para transplante de medula óssea (TMO) além de uma das estruturas pediátricas mais completas da América Latina.
Medicina mais complexa, custos maiores
Quando o Sistema Único de Saúde foi criado pela Constituição de 1988, a medicina tinha uma estrutura tecnológica e terapêutica muito diferente da atual. Hoje, tratamentos pediátricos de alta complexidade envolvem medicamentos de alto custo, terapias avançadas, transplantes e tecnologias diagnósticas extremamente sofisticadas.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da OCDE, os custos globais da medicina cresceram de forma exponencial nas últimas décadas devido à incorporação de novas tecnologias e terapias especializadas. Em hospitais pediátricos de alta complexidade, esse impacto é ainda mais evidente.
“Para oferecer medicina de ponta às crianças, muitas vezes precisamos utilizar medicamentos ou tecnologias que simplesmente não estão contemplados nas tabelas de financiamento do sistema público. Existem ampolas de medicamentos que podem custar mais de R 12 mil e que não são integralmente cobertas. Quando isso acontece, o hospital precisa encontrar caminhos para garantir o tratamento”, explica Ety Cristina Forte Carneiro, diretora-executiva do Hospital Pequeno Príncipe.
Outro desafio está na atualização dos valores pagos pelo sistema público de saúde. A chamada tabela SUS (baseada historicamente na tabela Sigtap) não acompanha integralmente os custos reais da medicina moderna. “O Brasil vive um enorme desafio estrutural: a medicina evoluiu muito mais rápido do que os mecanismos de financiamento da saúde. E quem acaba pagando essa conta, muitas vezes, são as instituições que se dedicam a oferecer tratamentos de alta complexidade”, afirma Cassio Sum, diretor-técnico do hospital.
Um hospital que funciona como 40 hospitais em um
Além da escala de atendimento, o Pequeno Príncipe também se diferencia pela diversidade de especialidades. Hoje, o hospital reúne mais de 40 especialidades e áreas pediátricas, o que o transforma praticamente em um complexo médico completo para crianças.
“Somos referência nacional em diversas áreas da pediatria. Isso significa que a própria Central do SUS encaminha pacientes de todo o país para serem tratados aqui. Não se trata apenas de volume de atendimentos, mas de tratamentos de altíssima complexidade”, explica Cassio Sum. Ele destaca que muitos hospitais pediátricos no Brasil são especializados em apenas uma área — como oncologia — enquanto o Pequeno Príncipe atua simultaneamente em múltiplos campos.
“É como se fossem quarenta hospitais funcionando dentro de um só.”
O impacto direto da destinação do IR
Nos últimos três anos, a destinação do Imposto de Renda permitiu que R$ 136 milhões chegassem ao Hospital Pequeno Príncipe para financiar projetos de assistência, pesquisa e inovação em saúde infantil.
Somente em 2025, a captação via destinação do IR alcançou R$ 43,1 milhões, provenientes de 4.026 pessoas físicas e 322 empresas. Esse crescimento mostra que, quando os contribuintes compreendem o mecanismo, a tendência é que a destinação se torne recorrente. A taxa de reinvestimento entre doadores já chega a mais de 70%, indicando que a maioria volta a destinar recursos nos anos seguintes. Em 2006, apenas 110 pessoas utilizavam esse mecanismo para apoiar o hospital.
Hoje são mais de quatro mil doadores, dos quais 60% do eixo RIO-SP e 14,3% do DF. Atualmente, o SUS cobre 29% dos custos, convênios 46% e particulares 3%. Os recursos captados de diferentes formas, incluindo IR , representam 21% do orçamento e complementam o deficit hospitalar e cobrem integralmente os custos do instituto de pesquisa.
O poder da decisão do contribuinte
Apesar dos avanços, o potencial nacional ainda está longe de ser atingido. Para ampliar a conscientização, o hospital lançou pela primeira vez uma campanha nacional baseada em uma ideia simples: destinar parte do imposto não é complicado. Inspirada na expressão popular “não é um bicho de sete cabeças”, a campanha busca mostrar que o processo leva poucos minutos dentro do próprio programa da Receita Federal.
“O dinheiro já existe. Falta apenas decidir para onde ele vai”, afirma Ety Cristina Forte Carneiro.
Uma escolha sobre o país que queremos construir
Em um país marcado por desigualdades regionais, hospitais especializados muitas vezes se tornam referência nacional para tratamentos que não existem em outros estados.
Isso significa que crianças de qualquer região do Brasil podem ser encaminhadas ao Hospital Pequeno Príncipe quando precisam de investigação de doenças raras, tratamentos complexos, alguns tipos de procedimentos e cirurgias, e transplantes. Para os especialistas da instituição, ampliar a cultura de destinação do Imposto de Renda é também uma forma de fortalecer a responsabilidade coletiva sobre o futuro do país.
“Quando um contribuinte decide destinar parte do seu imposto, ele está exercendo um direito de participação social. Está escolhendo investir diretamente em saúde, ciência e no futuro das crianças brasileiras”, afirma Ety Cristina Forte Carneiro.
Porque, no fim das contas, investir na saúde das crianças não é apenas um gesto de solidariedade. É uma decisão sobre o avanço do país.

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