A expansão do número de médicos no Brasil tem alterado de forma significativa a maneira como estudantes e recém-formados encaram o início da carreira. Em um cenário de maior concorrência, especialmente nos grandes centros urbanos, a ideia de que estabilidade financeira e reconhecimento profissional são automáticos após a graduação vem sendo substituída por uma percepção mais cautelosa sobre o mercado de trabalho.
Dados do Conselho Federal de Medicina indicam que o país já ultrapassou a marca de 575 mil médicos em atividade, com forte concentração nas capitais e regiões metropolitanas. A ampliação de cursos e vagas nos últimos anos intensificou a disputa por oportunidades.
Formada em 2023, a médica generalista Laura Maria Voss Spricigo afirma que esperava encontrar mais portas abertas ao concluir a graduação. Segundo ela, a expectativa era alcançar uma estabilização mais rápida e estruturar um planejamento de carreira logo após a formatura.
“Me surpreendeu muito como o mercado médico se encontra supersaturado em diversas cidades e regiões. Pouco se falava sobre como a medicina já estava assim”, relata. Para Laura, embora cidades do interior ainda apresentem menos concorrência, começar do zero segue sendo um desafio em qualquer localidade.
Com dois vínculos de trabalho, ela destaca que manter uma clínica particular sem especialização é, hoje, pouco viável. “A formação do médico é muito longa. São seis anos de dedicação intensa para se tornar um médico sem especialidade. Para quem cursa universidade particular, grande parte recorre a financiamentos para custear despesas que são altíssimas”, afirma. Ao final do curso, diz, o recém-formado precisa lidar simultaneamente com dívidas e com um mercado cada vez mais competitivo.
A percepção de que a graduação não prepara plenamente o médico para a realidade profissional é apontada por Vinicius Julio Camargo, cirurgião plástico e autor do livro Sucesso Além do Jaleco. Ao relembrar o período em que cursava medicina, ele afirma que não imaginava que um dia precisaria administrar uma clínica. “Na minha mente, bastava ser um bom médico. Imaginava que os pacientes viriam naturalmente”, relata. O contato com o mercado, no entanto, revelou um cenário diferente.
Formado em 2022, Rafael Openkowski Ramires afirma que já esperava um percurso gradual. Atualmente, ele atua como psiquiatra em consultório particular, em um consórcio intermunicipal e como plantonista concursado. “A realidade correspondeu às expectativas, mas a concorrência vem aumentando rapidamente, especialmente nos últimos três anos”, afirma.
Mesmo entre médicos que optam pela residência, o planejamento de longo prazo tem se imposto desde cedo. Eduardo Von Muhlen Colini concluiu a graduação em 2023 e atualmente é residente de ortopedia e traumatologia. Ele afirma que pensar na carreira futura é uma preocupação constante. “Mesmo durante a residência, é preciso pensar na trajetória a longo prazo. A ortopedia foi uma escolha perfeita para mim, e poder participar da recuperação de pacientes é o que me motiva todos os dias”, diz.
Com mais de três décadas de experiência, cirurgião plástico avalia que o cenário atual exige dos médicos competências que vão além da formação técnica. “A profissão médica não é apenas uma ciência, mas também um negócio, e a combinação adequada desses dois aspectos é essencial para um sucesso duradouro”, afirma. Segundo ele, compreender gestão, finanças e posicionamento profissional passou a integrar a trajetória de quem ingressa na medicina.
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As reclamações dos médicos ouvidos para a matéria têm relação direta com a resistência de novos profissionais de servirem em cidades pequenas, onde se ganha financeiramente menos e onde os recursos tecnológicos são menores. E onde as interações sociais podem ser mais restritas.
É justamente diante dessa recusa que ganha força o conceito do Programa Mais Médicos, lançado em 2013 pela gestão da presidenta Dilma Rousseff (PT). Em parceria com a Organização Pan-Americana de Saúde, a iniciativa abriu vagas para profissionais estrangeiros e brasileiros atuarem em comunidades mais carentes. O sucesso foi grande e inquestionável, tanto que, com argumentos improcedentes, inclusive o que que cubanos vinham espionar o Brasil, o governo de Jair Bolsonaro destruiu o convênio e prejudicou milhões de pessoas. Logo em seguida veio a pandemia – 711 mil brasileiros morreram de covid-19.


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