Território onde a extrema-direita e o fascismo brasileiro dão cartas, constroem regras e cultivam preconceitos e intolerância, a região Sul do País volta a se destacar no noticiário da violência e da perseguição. Abaixo, o leitor e a leitora podem conferir mais uma aberração moral vivenciada por lá. Dessa vez, no Rio Grande do Sul. O texto é da Firmina, newsletter coletiva:
Uma professora foi esfaqueada por um grupo de estudantes em uma escola municipal da cidade de Caxias do Sul (RS), na tarde de terça-feira (31). Antes de cometerem o crime, os três adolescentes envolvidos (dois meninos de 15 e 14 anos e uma menina de 13 anos) quebraram as câmeras de vigilância da Escola João de Zorzi, impedindo a investigação dos detalhes da participação de cada um. A professora foi levada até o Samu com ferimentos leves e não corre risco de morrer.
Em entrevista, conforme apurou o G1, o vice-prefeito da cidade, Edson Néspolo, afirmou que o caso pode ser uma retaliação. Dias antes, a mãe de um dos adolescentes foi chamada pela direção da escola para conversar sobre o mau comportamento do filho. Ainda segundo o vice-prefeito, a professora vitimada não teve relação com a reclamação da instituição. “Ele se vingou da primeira pessoa que encontrou”, afirmou.
Em resposta ao ataque brutal sofrido pela professora em Caxias do Sul, o sindicato dos professores do Rio Grande do Sul (CPERS) divulgou uma nota de repúdio ao crime. De acordo com a nota, “o impacto psicológico e a sensação de insegurança dentro da escola são incalculáveis”.
O sindicato ressalta a recorrência de crimes de violência contra professores dentro do ambiente escolar e destaca que se trata de um reflexo do abandono das escolas pelo poder público. “Exigimos que as autoridades adotem medidas urgentes para garantir a segurança de quem ensina e aprende. É fundamental a presença de equipes multiprofissionais nas escolas, o fortalecimento das políticas de prevenção à violência e a valorização das(os) educadoras(es), que lidam diariamente com condições de trabalho cada vez mais precárias”.
A violência dentro das escolas foi abordada recentemente na série Adolescência, da Netflix. Machismo, misoginia, bullying e extremismo são alguns dos temas retratados. A produção narra o assassinato de uma estudante cometido pelo seu colega de escola, de 13 anos. A falta de preparo de professores e pedagogos para lidar com a situação é um dos pontos salientados. A pesquisadora Marcela de Oliveira Nunes, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, afirma que “é uma produção fictícia, mas que se ampara na realidade que explica muito o que está acontecendo aqui no Brasil, nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. Explica, também, o que está acontecendo com vários jovens”.
No Brasil, houve 164 pessoas vítimas deste tipo de violência escolar, sendo 49 casos fatais e 115 feridos, entre 2022 e 2023, segundo o relatório Ataque às escolas no Brasil: análise do fenômeno e recomendações para a ação governamental. Para a advogada e doutoranda em Educação pela Unicamp, Cleo Garcia, “precisamos focar na questão de que [quem comete esses ataques] são adolescentes, em uma fase de desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e afetivo – e são vulneráveis”.
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Outro episódio de brutalidade extrema, embora em outro estado e de natureza distinta, pode ser lida aqui.