Artigo da jornalista Sara Goes (foto ao lado) sobre a professora e cantora Fernanda Fialho:
O “medo por fora” e o “medo por dentro” de que falava Belchior: a dificuldade de processar o colapso do mundo quando o próprio chão, em Fortaleza, acaba de ceder
A morte de uma amiga não cabe no jornalismo. Enquanto o mapa-múndi se redesenha em tons de ameaça, o meu mapa pessoal sofre um apagão. É o “botão de cidade morta” que Belchior cantou, apertado sem aviso no começo da tarde.
Existe uma desproporção obscena entre a escala do mundo e a escala do eu. Por fora, a guerra acelera. Por dentro, o que há é o “sertão da solidão”, um espaço vasto e mudo onde a política perde a voz.
O medo que Belchior descreve é geográfico e íntimo. Ele começa em Washington, Tel Aviv, Teerã, atravessa o Atlântico e termina no Ceará, dentro de casa. A perda de quem amamos é o “nosso boi que morreu”. O fantasma no porão agora tem nome e rosto, e ele não se importa com a geopolítica do petróleo ou com mísseis hipersônicos.
O mundo está à beira do abismo, mas o abismo que realmente importa hoje é esse que se abriu entre a última mensagem que eu não respondi e o silêncio definitivo. Entre o medo do que está por vir e a dor do que já aconteceu, resta o movimento seco de quem precisa, apesar de tudo, buscar outro fôlego lá no Piauí.


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