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Um orgulhoso vira-latas brasileiro torturado e morto pela vergonhosa impunidade à brasileira

Por Roberto Maciel, jornalista:

Orelha não era um “cão comunitário”.  Dizer que era é uma definição vaga e não indica de fato a relevância social do cachorrinho torturado e morto por criminosos de classe alta – aquela que se julga poderosa para tirar vidas e invulnerável diante da lei – em Florianópolis (SC).

O cão Orelha (foto acima) era um vira-latas, um animal sem raça definida e, por isso, alvo preferencial de psicopatas. Precisava de proteção da sociedade e do poder público, o que não recebeu. Assim como ele, por séculos e séculos pessoas pretas, mestiças, homoafetivas, de religiões afro e indígenas foram e têm sido foco de violências, exclusão, humilhação e isolamento. Orelha era, e deveria mesmo ser, um orgulhoso vira-latas brasileiro, danado, capaz de se divertir com a própria desgraça e especialista em superar desafios. Morreu para denunciar o preconceito, a estupidez e a falta de compaixão.

Mas era, digamos, um cachorro com dotes políticos, hábil em dialogar com interlocutores vários, desprovido de luxos, dono de apetite incomum, desapegado de manias que o afastassem de outros cachorros e mesmo de pessoas humanas como os adolescentes psicopatas que o liquidaram.

Escrevo o que escrevo não por ter conhecido Orelha, mas por saber que figuras caninas como o Rex e a Kelly, que estiveram na minha infância e na minha adolescência com valentia, fidelidade, agilidade e docilidade, deveriam ter sido iguaizinhas a ele. E também porque sou capaz de dizer que um inteligente shitzu de apartamento, um yorshire fofinho, um ágil e engraçado maltês não seriam jamais atormentados pela violência dos abonados assassinos do Orelha.

Mais ainda: escrevo o que escrevo porque tenho enxergado um arrefecimento preocupante na capacidade de indignação de veículos de comunicação e das autoridades em relação à brutalidade com que se tratou o vira-latas – orgulhoso vira-latas, ressalto. Venho sentido o odor péssimo de complacência, de passação de pano, de impunidade e de esquecimento a favor dos criminosos.

Esse meu texto nada mais é senão um esforço, uma dose só, é certo, mas a que posso dar, pela Justiça e pela prevenção. Quem fez o que fez com Orelha é capaz de coisa pior, não duvide.

*** ***

Outro dia desses, leitor registrou nos comentários do Portal uma manifestação de inconformismo e uma crítica a nossos posicionamentos. Escreveu assim: “Vocês têm pena de um cachorro mas não têm compaixão por um ex-presidente, idoso e doente”.

Respondemos: “É exatamente isso. Orelha não quis o mal, não patrocinou 711 mil mortes, não quis morder a jugular da Democracia. Não temos somente piedade por quem recece – no caso, o Orelha; queremos justiça”.

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