Por Ana Márcia Diógenes, jornalista, professora e escritora:
A mão na mão de filho e a mãe começou na fila para o embarque. O pai, ao lado dos dois, olhava as bagagens de bordo, e parecia calcular se era melhor ficar de pé na fila ou esperar sentado. Mãe e filho, para além do status burocrático das companhias aéreas de quem é cliente bronze, prata, ouro, estrela, planeta, apenas curtiam o que poderia ser despedida, reencontro ou cotidiano. Não tive como descobrir. Aliás, preferi deixar assim mesmo.
Sem saber se era reencontro ou despedida, apenas me dediquei a olhar, com rabo de olho, como ia ser dentro do voo em que embarcamos juntos. Quis o destino que nossas poltronas ficassem lado a lado. Na mesma hora pensei: tenho a crônica do próximo domingo. Não é todo dia, nem mês, nem ano, que é possível ver a beleza de um homem adulto chamegar a sua mãe sem preconceitos.
Quando embarcaram, o pai ficou na janela da aeronave, a mulher no meio e o filho no corredor.
Durante as mais de três horas de voo, mãe e filho cochilaram. De mãos dadas. Não prestei atenção se o pai dormiu também, creio que sim, porque estava tudo silencioso do outro lado do corredor. O filho, que aparentava ter 1m80, se enroscou de um jeito que não sei como, e ainda colocou a cabeça sobre a mãe.
Geralmente, já na pré-adolescência os filhos começam a achar “mico” os pais irem até o portão da escola, imagina algum deles ou delas andarem de mãos dadas com mãe ou pai. Passada a fase de afirmação, são raros os que percebem a magia do toque físico com seus pais. Às vezes, só em tempos de despedida de seus idosos é que alguns acolhem, sem vergonha, as mãos de quem os ensinou a andar.
No caso do filho e da mãe, meus companheiros de viagem, apesar de não ter como saber se aquele era um momento especial, o que me marcou foi o carinho que envolvia mais que as mãos.
Era uma comunicação paralela presente desde um tal cordão umbilical que, na liberdade de escolha de colocar as mãos em qualquer lugar, optou estar ali. Escolheu rejeitar que crescer, nas convenções que as gerações criam, é cobrado como um apartar-se. Escolheu não ter vergonha de ser afeto.
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Ana Márcia Diógenes é graduada em Comunicação Social (UFC), especialista em Responsabilidade Social e em Psicologia Positiva e mestra em Planejamento e Políticas Públicas. É professora de Jornalismo (pós-graduação), escritora e consultora em comunicação e direitos para a infância e juventude.
Ela é a autora da foto que ilustra esta crônica.


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