Por Maurício Mendes, jornalista, na newsletter Fechamento, do site The Intercept Brasil:
As apurações iniciais da (chamada Operação) Vaza Flávio (realizada pelo site The Intercept) começaram num domingo, restritas a pouquíssimas pessoas. Tudo era absolutamente secreto.

Foram dias de correria intensa. Todos na redação do Intercept Brasil queriam, de alguma forma, puxar um fio daquele grande furo.
Depois que os jornalistas Paulo Motoryn, Francisco Amorim e Eduardo Goulart passaram a segunda-feira devorando as conversas, restaram alguns pontos cruciais para confirmar a história que iríamos contar.
Na terça, entrei, junto com outros colegas, na força-tarefa para a etapa mais tensa: a verificação final.

Checar, checar e checar de novo
Precisávamos de certeza matemática antes de apertar o botão “publicar”. E havia um nó na história: o suposto encontro entre Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, marcado pelo jornalista Thiago Miranda, do portal Leo Dias, às 17h30 do dia 11 de dezembro de 2024, em Brasília.
O tema do encontro? Negociar o apoio de Vorcaro ao filme “Dark Horse”, a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, na mansão do banqueiro na cidade.
A pergunta era simples, mas decisiva: os dois estavam de fato na capital no mesmo horário?
Sobre Vorcaro, a dúvida caiu rápido. Goulart havia achado o rastro nas conversas dele com a namorada, Martha Graeff, vazadas da CPMI do INSS:
“Amorrrrr. Saudade demais. Acabei pousar brasilia”, enviou o banqueiro, no dia 10 de dezembro, às 18h47.
No dia 11, às 19h30, ele avisou que estava voltando para São Paulo. OK, Vorcaro estava na cidade onde foi marcada a reunião. Mas e o senador?
Flávio tinha votado no Senado nos dias 10 e 12. Mas no dia 11 — o dia da reunião — ele não havia registrado presença no plenário. Teria saído da cidade?
Fui mais a fundo nas buscas e achei um registro: ele esteve na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania naquele dia 11. O encontro durou o dia todo, até às 21h34. Mas as notas taquigráficas não eram uma garantia de que ele permaneceu na sala o tempo todo.
A única saída era assistir à gravação da sessão na íntegra.

Olhos colados na TV Senado
Dei play no YouTube da TV Senado. Na transmissão da tarde, lá estava Flávio Bolsonaro, na primeira fileira, quase cara a cara com Davi Alcolumbre, do União Brasil. O tempo passava e nada. Parecia que a busca não ia dar nenhum resultado.
Ele assistia à sessão, fazia intervenções burocráticas sobre a Reforma Tributária. Assunto muito importante, sem dúvida, mas nem de longe algo interessante de se assistir.
Achei que daria em nada.
Até que, às 17h10 — a 20 minutos do encontro marcado —, Flávio se levantou. Será? Alarme falso. Dois minutos depois, sentou-se de novo.
Voltei a encarar a tela. O relógio cravou 17h30, a hora exata da reunião. Flávio continuava ali.
Mas, minutos depois, o telefone do senador tocou.
Ele cobriu a boca com a mão — talvez para evitar leitura labial? —, levantou-se e saiu rápido da sala, falando ao celular.
A cadeira ficou vazia. Passaram-se 5 minutos. 10 minutos. 20 minutos.
Trinta minutos depois, Flávio reapareceu e sentou-se calmamente.
O intervalo de 30 minutos era curto demais para ele ter ido até a mansão de Vorcaro. Não sabemos como esse encontro ocorreu, nem se ocorreu de fato. Mas aquela meia hora permitiria uma reunião nas proximidades, uma ligação reservada ou uma chamada de vídeo.
O que temos certeza é de que a confirmação do apoio de Vorcaro ao filme veio pouco tempo depois, nas mensagens de áudio vazadas: às 18h24 daquele mesmo dia, o deputado Mario Frias, do PL de São Paulo, mandou um recado emocionado a Vorcaro:
“Só te agradecer, meu irmão. Vamos mexer com o coração de muita gente…”
Tudo se encaixou. Havia registros de que a reunião marcada naquele dia era parte do quebra-cabeça sobre o financiamento secreto do filme “Dark Horse”. Estávamos prontos para incluir esta parte da história na investigação e publicar.
Às vezes o trabalho de checagem pode ser tedioso, mas cada detalhe importa. Aqui no Intercept, checar as informações antes de publicar é um compromisso que assumimos, pois nosso jornalismo persegue sempre a verdade – e tudo o que publicamos é porque confirmamos antes.


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