Por Ronaldo Caminha, economista, músico e estudioso da arte e da cultura brasileiras – o autor escreve sempre aos sábados sobre música, artistas e histórias:
Não sei se vocês têm notado e concordam comigo. Venho observando, ultimamente, uma perda do elo cultural das famílias, principalmente no quesito música; o estilo e a
preferência musical dos pais com pouca ou nenhuma conectividade com a dos filhos, com raríssimas exceções.
Isso vale para o samba e para quaisquer outros gêneros.
É natural que existam diferenças entre as gerações, pois a música, como qualquer outra manifestação artística, está sempre em mutação; novas tendências vão surgindo e se inserindo na vida cotidiana das pessoas, o que considero saudável. Não pretendo dizer que os filhos devam ter o mesmo gosto dos pais, ignorando as inovações naturais que surgem e continuarão surgindo. Não dá para imaginar um jovem de hoje gostando apenas de ouvir Vicente Celestino, Orlando Silva, Chico Alves, Aracy de Almeida e Augusto Calheiros, mas não devia ignorá-los, pois, querendo ou não, eles são referências e fazem parte de uma cadeia em constante transformação.
Já me deparei depoimentos de vários músicos, compositores e cantores que se dizem influenciados por artistas de gerações anteriores, e sempre apontam o motivo como sendo uma herança familiar do ambiente cultural em que viveram.
Houve um tempo em que um dos principais difusores culturais era o rádio; objeto indispensável no ambiente doméstico, antes da chegada da televisão. Ficava exposto na sala de visitas e se mantinha ligado quase o dia inteiro, embalando os afazeres domésticos das donas de casa e as brincadeiras das crianças ao redor. A música que saía dele ia ficando na memória e se incorporando ao estilo de cada família. E o interessante era a diversidade de estilos musicais que fluíam das ondas curtas; tinha o horário da música sertaneja, da romântica, do samba, da MPB, dos clássicos; tinha também as novelas, noticiário, enfim, um pouco de tudo.
O rádio também mantinha as pessoas informadas sobre os lançamentos de novas músicas, pois os programas de disque jóqueis estavam sempre atualizados com o que surgia de novo no mercado, porque as gravadoras atuavam diretamente com as emissoras a fim de divulgarem seus produtos.

Outro dia, ouvi um depoimento do compositor Guinga em que ele fala da importância do rádio na sua formação musical, exatamente pela diversidade de estilos que ouvia em casa, e de forma muito espontânea aquela cultura familiar era compartilhada para todos, inclusive as crianças (abaixo, trecho da entrevista da Guinga).
Hoje, o rádio está colocado num plano secundário devido à evolução tecnológica – com novas alternativas de mídias, porém muito individualistas, que colocam as pessoas em mundos independentes; conectadas com o distante e desconectadas do seu entorno.


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