Por Tuty Osório, jornalista e escritora:
O amigo Jarbas Oliveira lançava um livro de fotos da Praça do Ferreira, personagens e diferentes momentos do dia. Textos belíssimos de Mapurunga. Fui com as filhas, num fim de tarde, café com tapioca, gente querida que não via há tempos. Luiza era a gestora do Centro, e estava lá, bela, inteligente e acolhedora como sempre. Arruda surgiu do lado oposto ao que estávamos, levou a minha filha Manuela, então com 5 anos, para ver o cão caramelo do morador da Praça. Alguns temeram pela segurança da criança, eu sorri tranquila. Está com o Arruda, está com um anjo, falei distraída, olhando-os atravessar, novamente, para o outro lado, de mãos dadas. O vento suave do Centro de Fortaleza, a beleza da Praça no fim de tarde, Manuela correndo sob proteção bondosa, a alegria do Jarbinha pelo acolhimento ao livro. Momentos doces, inavaliáveis pela lógica cruel do capitalismo.
Eis que o Arruda Júnior partiu de nós, daqui desta dimensão. Despeço-me dele sem culpa porque sempre celebrei o seu jeito diferente, descompromissado com regras, comprometido com as pessoas. O coração gigante não compreendia conveniências, adequações. O tempo dele era diferente. As referências também. Era o Arruda doido, o Arrudão, o guia de uma geração que não terminou. O eterno estudante militando nas ruas, sensibilidade que não cabia num corpo, rasgava a burrice dos manuais, confundia a superficialidade dos bons comportamentos. Não fosse ele, a Manu não teria tido a alegria de se aproximar do cachorro fiel escudeiro do mendigo símbolo da Praça. Sem essa aproximação a visita não teria sido verdadeira. Manu lembra pouco, porém, a corrida em círculos alentada pela brisa, vigiada pelo desprendimento do Arruda, está gravada a fogo, com a fúria dos que sabem amar.
Foi-se o Arruda, Estão para ir mais valentes. Desolada diante da finitude inexorável, confirmo que temos que viver livres das amarras das conveniências. Como nos perdemos de nós e dos outros que nos definem… Os outros que são bússolas em meio ao temporal de tormentas que atravessamos em busca de restaurar o que nem sabemos. Sem delongas, enfrentando a pieguice, onde está o nosso coração?
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Tuty Osório é jornalista, especialista em pesquisa qualitativa e escritora. São de sua lavra QUANDO FEVEREIRO CHEGOU (contos de 2022);
SÔNIA VALÉRIA, A CABULOSA (quadrinhos com desenhos de Manu Coelho de 2023) e MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA, dez crônicas, um conto e um ponto (crônicas e contos, também de 2023).
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SÔNIA VALÉRIA, A CABULOSA
QUANDO FEVEREIRO CHEGOU
MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA
O livro AS CRÔNICAS DA TUTY também está disponível em edição impressa, com publicadas, inéditas, textos críticos e haicais.


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