The Intercept: “O show de horrores da extrema direita na CPMI do INSS” (ou “O golpe comete fraude e vira crime: como atropelar a Democracia usando paletó e gravata”)

Antecipamos a coluna do Jornalismo Wando para sábado a noite. Daqui a pouco, entra no ar a denúncia completa do MP contra o MBL - Movimento Brasil Livre. Aguarde! | Intercept Brasil | FacebookPor João Filho (foto ao lado), jornalista, editor no site The Intercept:

A extrema direita brasileira é mesmo composta por uma gente horrorosa. Esse horror é constatável sob qualquer ponto de vista, seja ele moral, intelectual ou estético. Não bastou prender os líderes golpistas. Essa turma segue movida pelo espírito golpista e praticando pequenos golpes na democracia.

Eles atropelam as regras do parlamento e agem como aqueles valentões de colégio de filme de Hollywood, que andam em bando e impõem sua vontade através da intimidação e da porrada. Nesta semana, o golpismo promoveu mais um show de horror na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Instituto Nacional do Seguro Social, a CPMI do INSS.

Como de costume, a comissão se tornou palco de disputa eleitoral, com bolsonaristas querendo associar o nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao escândalo a qualquer custo, nem que para isso seja necessário derrubar o tabuleiro do jogo. Tendo a presidência e a relatoria da CPMI em suas mãos, o bolsonarismo aplicou um golpe em uma das votações da comissão.

Manobra golpista

O presidente da comissão, o senador Carlos Viana, do Podemos, atropelou o regimento ao ignorar uma norma clara: em votações simbólicas, vale a maioria que esteja fisicamente presente no plenário.

Havia ao todo 21 parlamentares, sendo que 14 eram governistas. A vitória governista era óbvia, mas Viana se fez de louco, fingiu que não viu os 14 parlamentares governistas em pé e decretou a vitória da oposição por 7 a 0. Foi um golpe escancarado, à luz do dia, com dezenas de testemunhas e câmeras registrando tudo.

Entre os 87 requerimentos embutidos no pacote que foi submetido à votação, estava a quebra de sigilo bancário de um dos filhos de Lula, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, que surgiu durante a investigação como suspeito de ser sócio oculto do Careca do INSS — o principal operador do esquema.

Depois de virar o tabuleiro e fraudar a votação, a oposição saiu de peito estufado e apareceu nas manchetes como responsável pela quebra do sigilo bancário de Lulinha.

Mas foi tudo um jogo de cena. O Supremo Tribunal Federal, o STF, já havia autorizado a quebra não só do sigilo bancário do filho de Lula, mas do fiscal e telemático (mensagens e e-mails).

A oposição já tinha conhecimento disso e, mesmo assim, decidiu trazer o tema na marra para os holofotes da CPMI, visando ganhos eleitorais. Na prática, nada mudaria em relação à apuração do envolvimento de Lulinha.

Diante da contagem escandalosa do presidente da comissão, parlamentares governistas protestaram e iniciou-se um empurra-empurra no plenário. Os oposicionistas atingiram o objetivo: saíram diante dos eleitores incautos como os paladinos da ética que conseguiram quebrar o sigilo do filho do presidente, e os governistas como os arruaceiros que partiram pra briga porque queriam protegê-lo das investigações.

O cinismo da oposição revela que a prioridade não é investigar o que ocasionou os desvios do INSS, mas fabricar fatos eleitorais que coloquem o governo como cúmplice da roubalheira e a oposição, como a heroína.

Uma fraude sem pudor

As CPIs sempre foram usadas como palco eleitoral por todos os lados do espectro político. Não há novidade aqui. Mas o bolsonarismo eleva a coisa à máxima potência, sem o menor pudor em fraudar as regras do jogo de maneira torpe e escancarada.

Na grande imprensa, deu-se destaque para a briga no plenário, mas pouco se falou sobre as razões que a ocasionaram. A coisa não foi tratada com a devida gravidade. A flagrante fraude na contagem dos votos ficou relegada a um segundo plano.

A imagem passada para a população foi a de que se tratou de mais uma avacalhação de um parlamento acostumado a ser avacalhado. É muito mais grave que isso. Foi um golpe regimental do mesmo grupo político que tentou um golpe de estado e cujos principais líderes estão na cadeia.

Houve quem chamou o golpe na votação de “olé” da oposição em cima do governo. No futebol, o olé é uma saudação a um grande drible ou a uma troca de passes que faz o time adversário de bobo. Aqui, soa como uma normalização da picaretagem, como se o expediente golpista usado pela oposição fosse algo corriqueiro no parlamento.

Na imprensa, um ‘olé’

Na ânsia pela busca de uma isenção performática, há jornalistas que preferem evitar a fadiga de chamar “golpe” de “golpe” e “golpista” de “golpista”. Uma fraude flagrante na contagem de votos vira “olé” e é jogada na vala do senso comum, em que todos os políticos são iguais.

Parte da imprensa não falha apenas no compromisso com a verdade, mas se torna cúmplice da erosão institucional promovida pelo bolsonarismo.

As fraudes no INSS começaram no governo de Michel Temer, ganharam tração durante o governo de Jair Bolsonaro e continuaram no governo Lula.

É um escândalo que envolve gente de todos os espectros políticos, mas o fato fundamental é que as denúncias só prosperaram e ganharam força com as ações em conjunto da Controladoria-Geral da União, a CGU, e da Polícia Federal, a PF, do governo Lula.

Servidores do INSS foram afastados e os aposentados lesados estão sendo ressarcidos pelo governo. Até o momento, já foram devolvidos quase R$ 3 bilhões para mais de 4 milhões de vítimas dos desvios.

A prova cabal de que a investigação da Polícia Federal não está sofrendo interferência por parte do governo é o pedido que a corporação fez para quebrar os sigilos de Lulinha.

Essa autonomia para se investigar filhos de presidente não existiu durante a gestão Bolsonaro, como foi atestado pelo então ministro da Justiça, Sergio Moro, que se demitiu do cargo dizendo que o governo interferiu nas investigações da PF contra Flávio Bolsonaro. Como se vê, a cara de pau do bolsonarismo neste caso envolvendo Lulinha é algo monumental.

A investigação contra o filho do presidente está percorrendo os ritos técnicos e não há o menor indício de que o governo esteja boicotando.

Afinal, quando a PF da gestão Lula pede a quebra de sigilos do filho do presidente e um ministro do STF nomeado por Bolsonaro a acata, temos o funcionamento pleno de uma democracia.

É preciso que fique claro que o protesto dos parlamentares governistas não foi para impedir investigação, mas contra um golpe no regimento que tinha como único objetivo conquistar dividendos eleitorais.

Bolsonaro e outros líderes golpistas foram presos, mas o espírito golpista segue vivíssimo entre os bolsonaristas.

É preciso que todos os democratas — do parlamento à imprensa — mantenham-se vigilantes para combatê-los. Não há isenção possível quando a polarização se dá entre a civilização e a barbárie.

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