Por Joaquim de Carvalho, jornalista, no site Brasil 247:
A coincidência é eloquente.
Bastou que a música “Tapete Vermelho”, da cantora e compositora Lina Luz, se transformasse em um dos símbolos da mobilização em torno de Lula para que sua autora passasse a enfrentar um problema que, infelizmente, já se tornou familiar entre vozes identificadas com o campo progressista: a punição silenciosa das grandes plataformas.
No sábado, antes de Lula discursar durante a convenção que oficializou Fernando Haddad como candidato ao governo de São Paulo, em Campinas, um clipe com “Tapete Vermelho” foi exbido e a música ganhou uma dimensão política ainda maior. Era a consagração de uma composição que nasceu de forma espontânea, viralizou nas redes sociais e conquistou milhares de brasileiros.
Dois dias depois, veio o choque.
Morando no Japão, Lina Luz me telefonou aos prantos. Sua conta no Instagram havia sido restringida. Sem qualquer explicação. Sem indicação de qual norma teria sido descumprida. Sem direito, até agora, a compreender por que foi punida.
Na prática, ela ficou impedida de fazer justamente aquilo para o qual utiliza a rede social: divulgar seu trabalho artístico.
“Eu só uso meu perfil para divulgar minhas músicas. Não posto foto pelada, não peço dinheiro para ninguém, não publico fake news”, desabafou.
A punição produziu um efeito imediato. Lina não conseguiu publicar uma nova música dedicada ao Bolsa Família, programa criado por Lula em seu primeiro mandato e responsável por retirar milhões de brasileiros da pobreza.
O silêncio do Instagram é tão grave quanto a punição.
Uma empresa que concentra tamanho poder sobre a circulação de informações e sobre a atividade profissional de milhões de pessoas não pode simplesmente bloquear um usuário e se recusar a dizer por quê. Transparência não é favor. É obrigação.
Sem uma justificativa clara, resta espaço apenas para hipóteses.
Lina acredita ter sido vítima de uma ação coordenada de grupos bolsonaristas.
“Só isso explica por que houve a restrição. Mas o Instagram deveria explicar por que me puniu”, afirmou.
Sua suspeita não nasceu da imaginação.
Ela mostrou à coluna uma mensagem publicada por um apoiador de Flávio Bolsonaro. O militante a ataca politicamente e marca o perfil de Eduardo Bolsonaro, hoje nos Estados Unidos, onde atua em articulações políticas junto à extrema direita internacional. Na postagem, ele sugere que Eduardo “acione” a cantora.
É impossível afirmar, neste momento, que exista relação direta entre aquela mobilização e a decisão do Instagram. Mas seria igualmente irresponsável ignorar a sequência dos fatos.
Primeiro vieram os ataques.
Depois, a restrição.
O que se espera da Meta é simples: que esclareça se a punição decorreu de denúncias em massa, quais critérios foram utilizados para validá-las e qual conteúdo, afinal, teria violado suas regras.
Enquanto isso não acontece, permanece a impressão de que basta uma campanha organizada de denúncias para transformar artistas, jornalistas e militantes políticos em alvos de punições automáticas, ainda que não tenham cometido qualquer infração.
Conheci Lina Luz quando contei sua história nesta coluna. Evangélica, nascida em Bastos, no interior paulista, vivendo há anos no Japão, ela jamais imaginou que uma música composta por convicção política atravessaria oceanos e acabaria sendo cantada por milhares de pessoas.
Foi isso que aconteceu com “Tapete Vermelho”.
A canção não apenas viralizou. Tornou-se um símbolo da campanha de Lula e ajudou a construir um ambiente de entusiasmo em torno do presidente.
Talvez exatamente por isso sua autora tenha se tornado alvo de ódio nas redes.
Se essa hipótese vier a ser confirmada, estaremos diante de um problema que vai muito além do caso de Lina Luz. Significará que grupos organizados conseguem instrumentalizar os mecanismos de moderação das plataformas para calar adversários políticos.
Caso contrário, basta ao Instagram apresentar a justificativa da punição.
É uma resposta que Lina Luz merece.
E que todos nós também merecemos.
Porque, quando uma plataforma pode silenciar uma artista sem dizer qual foi seu suposto erro, a liberdade de expressão deixa de depender das regras públicas e passa a depender de algoritmos e decisões que ninguém conhece.
Não se trata apenas da conta de uma cantora.
Trata-se do direito de qualquer cidadão de saber por que foi punido antes de ser condenado ao silêncio.


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