Por Ana Márcia Diógenes (foto ao lado), jornalista, escritora e professora:
Em um dos clubes de leitura que participei com meu romance “Buraco de dentro”, no início de 2024, uma leitora disse ter adorado o livro, mas questionou o final. Respondi que, diante dos quase nove anos que passei conversando com pessoas em situação de rua, havia buscado escrever uma história que conversasse com a realidade da maioria das pessoas que habitam as ruas.
Buraco de dentro, mesmo sendo uma ficção, é o espelho das injustiças da sociedade. E foi isso que me moveu como escritora. Mirei nos reflexos dessas injustiças ao ler outros livros sobre o tema, ao pesquisar reportagens. Mas, antes de ser a mão que escreve, sou um corpo inteiro e uma alma que torcem cotidianamente por um mundo de oportunidades para todos.
Tenho uma felicidade enorme ao ver exceções abrirem espaço em meio ao que está posto. Vibro com cada estudante de escola pública com seus braços pintados após o resultado do Enem, com o entregador que fazia todo o trabalho a pé e ganha uma moto, com os que têm a carta escolhida em programa de TV e ganham uma super reforma na casa.
Assim, ao tomar conhecimento da história de Thiago Viana, 36 anos, que após viver oito anos nas ruas de Fortaleza, saiu da invisibilidade por meio da sua potência de voz, vejo que de vez em quando uma injustiça leva uma rasteira, um xeque-mate. O sonho dele, de viver de música, começou a se tornar possível após a viralização de um vídeo, com ele cantando, passar dos 20 milhões de visualizações.
A potência da voz de Thiago atraiu um empresário do setor de música e o rapaz se agarrou à oportunidade, em busca de realizar outro sonho: encontrar as filhas que não vê há algum tempo. Na nova caminhada, ele acaba de lançar a primeira música, com um título que nos leva a pensar: “Deus mudou minha sorte”. Estou na torcida que mais sonhos dele e de outros invisibilizados se realizem.
E, sem questionar a importância da fé, ou duvidar das boas coincidências, gostaria de fazer uma observação a quem assiste de camarote. Uma sociedade que delega questões assim a Deus é porque se esconde por trás da omissão. Nós, enquanto coletivo de gente, de seres que raciocinam, é que precisamos escrever, juntos, um novo desfecho para as histórias do nosso próximo.
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Ana Márcia Diógenes é graduada em Comunicação Social (UFC), especialista em Responsabilidade Social e em Psicologia Positiva e mestra em Planejamento e Políticas Públicas. É professora de Jornalismo (pós-graduação), escritora e consultora em comunicação e direitos para a infância e juventude.
As fotos no alto são de Thiago Viana.


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