Por Edmilson Maia Jr., professor universitário, historiador e escritor:
No caminho, ao voltar para casa depois de comprar frutas e verduras e um frango no Unibox, dona Eva estranhou o portão aberto do Duplex vermelho, pertencente à filha Léia, frente ao campinho de areia dos rachas da meninada à noite.
Eram umas 13 horas, tudo deserto, a chapa preta de ferro toda arreganhada, ninguém a vista, Eva ficou estupefata de vez ao notar a pampa vermelha do maridão estacionada na
rua entre o campinho e o portão: na carroceria tinha tipo um daqueles carrinhos de pipoca?!?!?
“Que diabos o Rubão está aprontando dessa vez, Jesus?” – elocubrou a Vó Evinha que estava justamente especulando por onde ele andava depois que ela pediu e ele saiu as 7 da manhã para comprar peixe para Semana Santa: “Esse doido que eu arranjei para a minha vida só pode ser maluco.” Dona Eva não deixou nem as coisas em casa, com as sacolas nas mãos, pisada ligeira, atravessou o campo de terra sob o sol escaldante. Ao chegar na calçada, entrou devagarinho na ponta dos pés, tudo aberto, passou pela área até a porta da sala igualmente escancarada! Viu a escada para os quartos, à sua esquerda, observou atenta a cozinha e quintal sem ninguém. Subiu. Logo ouviu do quarto do neto:
– Se a vida somente lhe der limões faça uma bananada…
– Que circo é esse aqui, Rubão? – falou vendo o marido, o genro e o menino no chão, morriam de rir de um palhaço em pé fazendo marmotas – Quem é esse daí?
– É o Paçoquito, Vovó. O Vô Rubão trouxe para fazer um show exclusivo, o maior espetáculo da terra para um só menino – disse o menino de 4 anos chamado José Antônio.
– Muito prazer, Milady, chamam-me Paçoquito, às suas ordens! Qual a sua graça?
– Sei não, viu…
– Sua vovozinha é conservada, Zezinho, é uma flor madura no jardim da idade.
– Quer ficar sem os dentes, né, Paçoquito? – Rubão logo frescou.
– Mil perdões, eu não sabia que a sua esposa era casada, Milorde. Permitam-me se redimir pelo atrevimento. Darei um apartamento decorado para vocês. Você quer, Milady?
– Como é que é?
– Vai ter duas suítes, uma sala, quartos com closet, banheiro social, cozinha loft.
Repita, Milady, nessa ordem, para ganhar seu apartamento decorado.
– Duas suítes, uma sala, quartos com closet, banheiro social, cozinha loft – ela repetiu, a contragosto, para não chatear seu netinho José Antônio.
– Mais uma vez, por obséquio.
– Duas suítes, uma sala, quartos com closet, banheiro social, cozinha loft. – falou dona Eva com vontade de desancar o Paçoquito e principalmente o Rubão.
– Perfeito, senhora: apartamento decorado com sucesso. Parabéns!
– É muito palhaço, viu?
Rubão, o genro e o netinho caíram de vez na gargalhada, quase se mijando de rir.
– Esse homem veio de onde, Rubão? – disse chamando-o para um canto da casa.
– O Paçoquito estava passando lá em frente a feira vendendo paçoquita no carrinho, por isso ele é o Paçoquito, né? Aí eu perguntei se ele não queria fazer uma apresentação para meu neto, nosso netinho. Aí ele veio comigo no carro. Não é demais?
– Não acredito nisso não, conhecia esse homem, tinha visto antes? E cadê o peixe?
– Não conhecia não, mas ele é o grande Palhaço Paçoquito, querida. Esqueci do peixe, empolguei com as palhaçadas do Paçoquito, desculpa.
– Era só o que faltava, trazer esse tal de Paçoquito para dentro de casa e deixaram tudo aberto lá embaixo. Sabe nem de onde veio esse homem. E todo mundo com fome.
– Ele é o Paçoquito, minha sogra amada – o genro George gritou morrendo de rir – e ele distribuiu paçoquitas de vários sabores para gente durante a apresentação.
– Melhor botar esse sujeito para fora, isso sim, Rubão! A Léia foi trabalhar até meio-dia, chega já, não vai gostar dele aqui que ninguém sabe nem quem é. Pedimos para se retirar e acabar o “maior espetáculo da terra” de vocês. – disse Eva ignorando o genro.
Para que ela foi dizer isso, pivete? O netinho de 4 anos correu, segurou sua mão:
– Vó Evinha, te amo, mas ele é o Paçoquito, um homem do bem, que veio trazer alegrias para as criancinhas que nem eu, melhor a senhora ir cuidar das suas coisas, deixe o Paçoquito terminar o show, tá bom? Venha comigo, vou conduzir a senhora até a saída.
– Paçoquito, só um momento, vou levar a Vovó Eva até a porta.
– Ok, Zezinho, falou bonito, a Vó ganhou seu apartamento decorado, está liberada.
José Antônio a levou pela mão passando escada, sala e área da frente, até o portão:
– Até mais tarde, Vó Evinha. Paçoquito está esperando para terminar o espetáculo.
– Juízo, vocês aí – ela gritou alto para que sua súplica chegasse pela varanda.
– Tchau, meu neto maluquinho que nem o Vô – tentando beijá-lo várias vezes.
Zezinho saiu correndo de volta que deixou o portão escancarado novamente.
Dessa vez ela puxou com força para que travasse com a pancada. Rumou para a casa distante a alguns quarteirões. Três horas depois, Rubão usou o chaveiro eletrônico, bota o carro para dentro, depois da grade deslizar pelo trilho metálico, e foi logo dizendo:
– Fui deixar o Paçoquito em casa, meu amor. Ele mora do outro lado da cidade, quase no limite municipal, por isso demorei. Pense num show que ele fez para nosso netinho, José Antônio nunca mais vai esquecer, mulher. Deixe de besteira.
“Parece que foi ontem, meu Deus!” Eva deu de lembrar disso tudo surpreendida pela Rádio no smartphone reportando sobre o Palhaço Paçoquito conhecido no passado nas feiras urbanas da região e que se matou após a mulher ter fugido pois não aguentava mais seus abusos. Ele teria planejado última violência fatal caso a esposa fosse ao seu encontro quando pediu uma reconciliação: “Paçoquito foi encontrado enforcado, hoje pela manhã, com um machado amolado em cima da mesa” – narrou o Programa Policial. “Essa machadada era para mim, Seu Repórter. Ainda bem que não atendi o apelo dele e não fui encontrá-lo. Paçoquito judiava muito comigo” – a viúva relatou ao Programa.
Eva, por sua vez, pensou: “Rubão ficaria pasmo com esse lado sombrio do gaiato”. Rubão que infartou, aos 53, um mês após o show do palhaço. O genro George bem sabia da notícia do Paçoquito, também ouvia programas policiais na net, só não diria nada, saía de depressão severa nos últimos tempos. José Antônio, que ia virar psiquiatra próximo ano nem recordava daquela tarde por mais que a avó rememorasse de vez em quando:
– Não adianta, Vó Evinha, não lembro nada disso de Paçoquito. Não recordo nem do Vovô Rubão, quanto mais desse tal “show do palhaço” quando eu tinha quatro anos.
“Melhor assim!”, Eva conversou com seus botões, sentenciando: “Adeus, Paçoquito, um a menos, graças a Deus…”
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Edmilson Alves Maia Júnior (foto) nasceu em 1977, em Fortaleza (CE), onde morou até o início dos anos 2000. Foi professor substituto nos cursos de História da Uece e UFC. É professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará desde 2008, na cidade de Quixadá, na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), e doutor em História pela UFMG.
Mestre e graduado em História pela Universidade Federal do Ceará, instituição na qual é professor do Programa de Pós-Graduação Profissional em Ensino de História. Coordena o Programa de Pós-Graduação em História e Letras da Feclesc.
Tem crônicas e contos publicados em sites e livro físico.


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