A Resenha da Tuty: “Mundo cor de leite”

Por Tuty Osório, jornalista e escritora:

Saramago não é para quem pode. É para quem quer. Quero dizer que ler Saramago é uma escolha. Você pode passar a vida inteira sem e viver bem. Diferente de Machado e de Eça, não vai fazer parte das leituras obrigatórias da escola e do ENEM. Não vai ser adotado por qualquer clube de leitura. Não dá para fingir que leu, que entendeu. Até porque Saramago não é para entender. É para ler em estado de graça. Como assistir Godard, Resnais, Kurosawa, Miyazaki. O Nobel foi para o conjunto da obra, porém há os títulos mais amados, os mais conhecidos, mais polêmicos. Da Estátua à Pedra, que reúne os discursos proferidos por ele em Estocolmo é emocionante. Lá, Saramago conta que aprendeu literatura com os avós analfabetos e o incrível talento com que o acarinhavam, contando histórias, Conta também que lia avidamente os títulos da biblioteca da escola industrial, onde foi aprender uma profissão técnica na adolescência. Foi o pragmatismo da sobrevivência que lhe abriu as portas para o fantástico mundo dos livros.

Sucesso internacional que virou filme com Julianne Moore, dirigido por Fernando Meireles, a saga dos privados de visão na cidade metáfora do mundo, fala da vileza, da baixeza da opressão do poder que surge com as dificuldades maiores. Fala também da bondade, da solidariedade, da força do coletivo. A doença que leva à brancura diante dos olhos, em lugar das convencionadas trevas, existe para além da ficção. Trata-se da alienação perversa que contamina quem se acredita superior. Vencida pela coragem de quem crê na igualdade, de quem resiste e por isso enxerga bem e longe. Mesmo fingindo que não vê, para manter-se junto ao grupo acometido pela moléstia. Ver e não ver são opositores e aliados. É aí que percebemos que Saramago não era um pessimista. Vestido com sua capa de lucidez, tragédia, sinceridade, deixava espaço para a luz que nos protege, salva, mantém humana a humanidade perdida.

Subversivo das regras, no propósito de ecoar a oralidade ancestral, os romances de Saramago são ensaios bordados em imensos parágrafos onde proliferam vírgulas. As asas da leitura são de um albatroz veloz e ágil no ar, trôpego e pesado em terra. Sem cinto de segurança, bússola, direção conhecida, o sobressalto é constante.
Entregue-se e verá a Deus. No qual o escritor dizia não acreditar, mais por teimosia que por convicção. Acho.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, por José Saramago, Companhia das Letras, nas melhores casas virtuais e físicas do ramo.

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Tuty Osório é jornalista, especialista em pesquisa qualitativa e escritora. São de sua lavra QUANDO FEVEREIRO CHEGOU (contos de 2022);
SÔNIA VALÉRIA, A CABULOSA (quadrinhos com desenhos de Manu
Coelho de 2023) e MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA, dez
crônicas, um conto e um ponto (crônicas e contos, também de 2023).
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