Ciro Gomes e a denúncia que virou pó (ou “Nem todos irmãos têm um dia de Caim e Abel, mas Ciro e Lúcio tiveram”)

Por Roberto Maciel, jornalista:

A denúncia tinha um quê de seriedade. Foi exposta pelo candidato a governador do Ceará Ciro Gomes (PSDB) em debate ontem à noite na TV:

– 10 toneladas de cocaína foram embarcadas do Porto de Fortaleza…

Gravíssimo, embora sem novidade nenhuma. Ciro citou aquilo tentando mostrar falhas de políticas de segurança do Governo do Ceará, mas nem mesmo se sabe se a droga foi a bordo aqui mesmo no Mucuripe.

Não esperava a resposta que o governador Elmano de Freitas (PT) deu:

– O presidente da Companhia Docas era o teu irmão, Lúcio!

Ciro se calou. Respirou fundo, bem fundo. Engoliu seco e, alterado, deu as costas ao adversário.

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Lúcio Ferreira Gomes, o mais casmurro dos irmãos Ferreira Gomes, é engenheiro civil como Cid. E, como Ciro, nasceu em Pindamonhangaba (SP). Tem 67 anos de idade e figura agora como candidato a suplente de senador na chapa do irmão mais velho – justamente o que o colocou numa saia justa danada. Declarou à Justiça Eleitoral ter patrimônio de cerca de R$ 3 milhões e nunca exerceu cargo eletivo, apesar de ter se ocupado de funções públicas em várias fases da carreira profissional.

Lúcio apareceu no debate só porque o irmão citou um caso de contrabando de drogas que pode ter ocorrido a partir de Fortaleza. Poderia ter passado discretamente, mas Ciro preferiu dar margens para que fosse lembrado.

No cisma da família, Lúcio ficou com Ciro Gomes e foi recompensado com a suplência na disputa pelo Senado e a coordenação da campanha. Não é pouco.

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Na época do episódio, em janeiro último, descobriu-se que o cargueiro United S, registrado em Togo, havia feito uma escala em Fortaleza antes de ser detido na Espanha com a mercadoria ilícita.

Naqueles dias verificou-se que não se sabia se a droga havia embarcado em Fortaleza. Mas sabe-se que Ciro Gomes silenciou. Não deu um pio sobre o crime, nada que merecesse uma nota sequer num jornal.

Nem para ganhar algum espaço na imprensa nem para se dizer indignado nem para bancar o xerifão.

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Não é a primeira vez que Ciro Gomes só fala sobre o que convém para ele. E quando convém. Aliás, parece ser esse um hábito que cultiva. Preste atenção nisso que disse num podcast na Internet:

Esse não é só um recurso retórico, mas uma estratégia para intimidar e ameaçar oponentes. E para se mostrar corajoso. Se quem estiver do outro lado tiver o rabo preso ou não puder responder à provocação, danou-se – Ciro vai acabar parecendo vitorioso.

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As grandes perguntas são: por que Ciro Gomes não se indignou com 10 toneladas de cocaína num navio que passou por Fortaleza? Por que, mesmo tendo sido colega de Bolsonaro e ter convivido com o golpista na Câmara federal, não o denunciou por roubo?

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Ciro, quem não te conhece que te compre. E embarque nessa.

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