“‘São Paulo não tem isso’: como achei um Wi-Fi paulistano no Rio de Janeiro”

Eu moro no Rio, mas não esperava identificar um ponto do programa WiFi Livre de São Paulo na Ilha de Paquetá. Mas calma: a prefeitura paulistana não resolveu bancar internet grátis para os cariocas – não que a gente não fosse curtir a ideia.

O encontro aconteceu nas coordenadas geográficas de uma planilha oficial. O endereço dizia: Conjunto Residencial José Bonifácio, em Itaquera. Já a latitude e a longitude apontavam direto para as areias da Praia José Bonifácio, na Baía de Guanabara.

Como gaúcho radicado no Rio, lembrei na hora do deboche carioca que virou meme: “São Paulo não tem isso”. A piada pronta: no papel a capital paulista tinha acabado de ganhar uma praia.

Essa foi apenas uma das inconsistências que encontrei ao analisar os documentos da reportagem que publiquei no Intercept ao lado de Laís Martins e Maurício Moraes. Investigamos o contrato milionário entre a prefeitura de SP e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), comandado por Karina Ferreira da Gama – a mesma dona da produtora responsável pelo filme “Dark Horse”.

Com dois aditivos , o valor ultrapassou R$ 157 milhões. Dinheiro mais do que suficiente para fazermos a pergunta básica: onde afinal estão esses equipamentos?

Coisa de nerd? Talvez. Mas funciona.

Ah, inconsistência é o termo usado na análise de dados para informações que apresentam contradições entre si. Um jeito educado de apontar um possível erro.

Minha parte na apuração foi nada cinematográfica: foi comparar planilhas, conferir CEPs e jogar coordenadas num mapa. Sou jornalista de dados.

Em uma profissão das humanidades, o jornalista de dados costuma ser visto como aquele sujeito “nerd” que gosta de matemática e passa horas isolado entre linhas de código.

Não vou fazer muito esforço para desfazer essa impressão. Mas a verdade é que nosso trabalho é confrontar dados para fazer perguntas melhores. E uma coordenada geográfica errada diz muito sobre uma prestação de contas.

Tivemos acesso a duas planilhas do WiFi Livre. Uma veio da prestação de contas do ICB enviada à prefeitura. A outra estava entre os documentos apreendidos pela polícia em uma busca na Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia.

Para fazer a busca virtual usei um software de análise geográfica para cruzar os dados da planilha com a malha do IBGE.

Comecei buscando erros clássicos: CEPs inexistentes, nomes de ruas errados e coordenadas fora do mapa. As duas planilhas gabaritaram o festival de absurdos. A segunda planilha trazia até datas de instalação no futuro para roteadores que já constavam como instalados no passado. Uma pegada meio “De Volta para o Futuro”, mas com verba pública.

‘Quando a esmola é demais’…

A quantidade de erros foi tão grotesca que a própria bagunça virou a pauta. Um dos dispositivos aparecia na rua Ângelo Bini, na zona leste paulistana, mas suas coordenadas levavam direto ao Rio de Janeiro. E Paquetá não foi um caso isolado: encontrei outros 36 pontos cujas coordenadas jogavam o sinal para fora da capital paulista.

Quando os dados parecem confirmar a nossa hipótese rápido demais, o bom jornalista desconfia. Sabe o ditado “quando a esmola é demais, até o santo desconfia”? Pois é.

Inverti a pergunta: e se o erro fosse meu? Refiz as verificações por caminhos diferentes, tentando provar que eu estava errado. Fiz isso três vezes. Os erros continuaram lá.

Nenhuma dessas inconsistências prova, por si só, que o equipamento não foi instalado. Mas revelam falhas gravíssimas na fiscalização de um contrato de R$ 157 milhões. E tudo começou com um par de coordenadas apontando para Paquetá.

E na sua cidade?

Você já tentou usar um serviço público que “no papel” parecia incrível, mas na prática simplesmente não funcionava?

Compartilhe o artigo:

ANÚNCIOS

Edit Template

Sobre

Fique por dentro do mundo financeiro das notícias e opiniões que rolam no Ceará, Nordeste e Brasil.

Contato

contato@portalinvestne.com.br

Portal InvestNE. Todos os direitos reservados © 2024 Criado por Agência Cientz